Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Não fosse o amanhã, que dia agitado hoje seria

Mundo prestes a desabar em Brasília

A frase-título deste post está pichada no tapume de uma obra, em frente à qual costumo passar. Previsões de fim do mundo; pareceres médicos daqueles que nos dão apenas mais alguns meses de vida; leituras de mão que apontam o fim próximo. Se fossem cem por cento confiáveis, o que poderia ser mais libertador? Apesar de termos certeza de nossa existência limitada, muitas vezes nos comportamos como se estivéssemos deslizando suavemente no tobogã da vida eterna. Aquilo que você deixar para depois não vai voltar, esqueça. Viva como se estivesse sonhando, e seu sono será tranqüilo, pois quando chegada a noite já não haverá mais com o que sonhar.

Assim como nos permitimos comemorar a cada virada de ano um novo começo – com o qual nos planejamos, nos organizamos e nos abastecemos de nova esperança – devemos atentar para a beleza intrínseca à finitude de tudo o que há no mundo. Inclusive a nossa própria.

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

Legoman

Legoman no Shopping Iguatemi, em Brasília
Era uma vez um homem quadrado. Ele vivia só, a maldizer o mundo e suas mudanças, sempre para pior. Nascera redondo, com cara de joelho, como todo mundo. Na adolescência se tornou longilíneo, jovem mancebo que era. Não percebeu bem a transição, mas um belo dia acordou e viu que era adulto. Achava então que tinha vivido tudo o que tinha para viver na sua juventude. Seus ombros se achataram, sua coluna encurtou. Seus pés já não arriscavam deixar por muito tempo a segurança do chão. Um dia se olhou no espelho e viu que perdera resolução. Tal como um tosco desenho de poucos bits, viu que se tornara quadrado.

Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

Você tem medo do Google?


Estou terminando de ler o livro Googled, do Ken Auletta. Além de trazer uma biografia da empresa, com casos interessantes, ele mostra principalmente a paranoia vivida pela chamada mídia tradicional, que cada vez mais se vê passada para trás pelos velocistas da internet. No entanto um terceiro ponto abordado me chamou a atenção: a preocupação com a privacidade, dada a enorme quantidade de dados coletados não só pelo Google como pelos outros gigantes da internet e telefonia.

Foto do Dirt Floor
 O refinamento e melhor direcionamento das pesquisas feitas no Google são possíveis graças às informações que passamos para eles todos os dias. Como faço para temperar filé? Joga no Google. Como faço para configurar um aparelho de GPS? Joga no Google. Qual a diferença entre o charme e o funk? Joga no Google. Sabe aquele colega de trabalho, o qual você suspeita ser um psicopata? Joga o nome dele no Google e investigue a vida alheia.

O Google reúne essas informações e vende, direta ou indiretamente (em forma de anúncios), para as empresas que querem ver seu produto ou serviço disponibilizado para o seu público-alvo. Recentemente pesquisei no Google sobre lugares legais para conhecer no Chile. Vi fotos e relatos de viagens sobre o deserto do Atacama. Dias depois, ao entrar em sites que utilizam o sistema de anúncios Adsense do Google, apareceram vários banners me oferecendo opções de hotel em São Pedro do Atacama.

Quando lançaram o Gmail, o Google não disponibilizou um botão de “Excluir” para as mensagens. A ideia era que os usuários iam adorar a grande capacidade de armazenamento oferecida gratuitamente e gostariam de manter as mensagens para a posteridade, consultas posteriores, etc. Acontece que o Google tem algoritmos capazes de vasculhar as mensagens, na busca por termos que ajudem a definir os nossos interesses. Como o serviço é realizado por máquinas, a privacidade estaria garantida, certo? No entanto, alguns suscitam dúvidas quanto a possíveis vazamentos de informações. Na China, por exemplo, houve uma invasão hacker a contas de e-mail de desafetos políticos do governo vermelho. Isso acabou levando à saída do Google do mercado chinês, mesmo resultando em enormes perdas econômicas para a empresa. Isso pode contar positivamente para a formação da opinião pública quanto às intenções da empresa, mas será que pode garantir que pessoas mal intencionadas não venham a burlar o sistema de segurança e usar perniciosamente as nossas preciosas informações? Pelos motivos certos, ou não, os usuários do Gmail pressionaram pela inclusão do botão “Excluir”. E o Google cedeu.

Uma versão ainda mais agressiva de marketing ultrapersonalizado pode vir a ser implantada, graças ao sucesso dos celulares conectados à internet. Imagine que você andou pesquisando sobre o último filme do Tarantino, vendo comentários no blog de um fã e assistindo a um trailer no You Tube. No dia da estreia você está passando casualmente em frente ao cinema. De posse de informações sobre suas procuras e do seu posicionamento fornecido pelo GPS do celular, o Google direciona o anúncio do filme que chega até você via mensagem. Um lembrete: “Ei, você estava querendo assistir esse filme e adivinha só? Ele está passando nesse cinema pelo qual você acabou de passar.” Perturbador? Alguns acham que sim. É como se uma força invisível estivesse querendo nos controlar. Às vezes acho engraçado que algumas pessoas achem que o Google está prestando atenção nas vidas delas em particular.

Em minha opinião o modelo proposto pelo Google, a princípio, não tem nada de errado. No final das contas ele está prestando um serviço monumental de organização das informações, totalmente de graça. Quer dizer, quase. Em troca ele quer as suas informações. Cabe a você decidir o que você quer compartilhar, e com quem você quer compartilhar. Muita gente tem adotado uma postura de alta exposição da sua imagem nas redes sociais e não vê nada de errado nisso. Eu acho que temos que limitar as informações que deixamos à solta na internet. Afinal, basta uma mente perversa inteligente o suficiente para usar o aparentemente inofensivo para o mal. Sem paranoia, é claro.

Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

O violão de Mr. Anderson


Sou fã das músicas do Jethro Tull. Progressivo, lírico, acústico, rock and roll, sarcasmo, tudo numa banda só. Os caras são um pouco ingleses demais às vezes, é verdade, mas têm uma musicalidade que transborda qualquer rio. A formação da banda sofreu várias alterações ao longo dos muitos anos de atividade (desde 1967), mas a alma e mente criativa – personificada em Ian Anderson – permanece. Ele é o cantor, principal compositor, flautista, violonista e arranjador da banda. Ele é o cara, ponto.

Entre os mp3 que possuo da banda chamou-me a atenção recentemente uma seleção, chamada “The Best of Acoustic Jethro Tull”. São muitas as intervenções acústicas de Ian Anderson nas músicas do Tull, que tão bem caracterizam o som deles, juntamente com a flauta. O engraçado é que o estilo violeiro de Anderson é praticamente “incopiável”. Apesar de geralmente usar acordes relativamente simples, ele faz variações umas em cima das outras, quebra ritmos, posiciona o capo em diferentes partes do braço, usa e abusa de ligaduras e “pull-outs”. Parece um insaciável compositor atrás da melodia/harmonia perfeita, interligando as diferentes partes de uma música com firulas que, apesar de nas mãos de outro instrumentista poderem soar como arrogância, no caso dele saem tão naturalmente que parecem viajar ao doce sabor do vento.

Já fiz tentativas de aprender a tocar músicas do Tull no violão, mas minhas incursões apenas arranharam a superfície do profundo lago que existe ali. Para entender melhor o que estou querendo dizer vale a pena assistir o vídeo a seguir.


Sexta-feira, Janeiro 06, 2012

Viajando na Internet

Viajar tem se tornado ainda mais interessante com a quantidade de informações que percorrem os cabos ópticos e ondas da internet.

Foto do site de noticias R7
O site Sleeping in Airports traz dicas de como dormir em aeroportos a fim de economizar. Uma das mais engraçadas nos sugere agir de forma inocente. “Mesmo se você dorme regularmente em aeroportos, não haja como um profissional!” – diz o texto em inglês. Ele também traz relatos de adeptos do esporte e as condições dos diferentes aeroportos para a prática da atividade. O máximo que já cheguei perto de entrar na onda foi em Guarulhos. Após chegar lá por volta da meia-noite, tive que esperar o horário dos ônibus que saíam para São Carlos no Terminal Tietê no dia seguinte. Fiquei no aeroporto até umas cinco da manhã, feito um zumbi, assistindo a reprises de jogos de futebol e tentando, inútil e repetidamente, passar de um determinado parágrafo de Os Irmãos Karamazov. Não consegui relaxar e dormir como os freqüentadores do Sleeping in Airports, mas a experiência acabou inspirando esse antigo texto aqui.

Outra curiosidade com a qual me deparei recentemente foi com a notícia de uma empresa aérea holandesa – a KLM – que disponibilizará, na hora de fazer o check-in on-line, os perfis dos viajantes em redes sociais. Assim, você pode dar uma checada nos passageiros do voo antes de escolher o seu vizinho de poltrona, com quem disputará silenciosamente o braço que demarca a fronteira. Obviamente, os clientes só têm seus perfis mostrados na tela se eles autorizarem. Geralmente tento garantir o corredor para mim. Porém, da última vez que tive que ir sentado na poltrona do meio, com minha esposa ao lado, na janela, sentou uma mulher do meu outro lado. Se eu não soubesse que Tim Maia estava morto, eu juraria que era ele. Moral da história: ombros encolhidos e costas quebradas ao fim do voo. Nada como a surpresa em vez dessa mania de tudo controlar.

Há inúmeros sites que tratam de relatos de viagem, com pessoas dando dicas e opiniões sobre os mais diversos recantos do mundo. É uma ótima maneira de fazer sua pesquisa antes de viajar. Cresce também o número de travel-blogs. Gente que resolve viajar por tempo indeterminado e escrever sobre a aventura. Na sessão Vagabonding Voices, do site de Rolf Potts, há estudos de casos de pessoas que viajam por longos períodos. Normalmente há um link para o site pessoal delas, com relatos interessantes de viagens pelos mais diferentes lugares.

Outra febre interessante é a de artigos desenvolvidos especialmente para o viajante perene. Basta digitar “travel gear” no Google e aparecerão várias lojas e marcas especializadas no assunto. Há roupas leves, feitas de tecidos que não amassam e que secam rapidamente. A ideia é diminuir o peso e o volume, e permitir que roupas sejam lavadas em pias de hotéis. A marca Ex-Officio promete cuecas que não retém umidade, meias com anti-repelente e calças que se convertem em bermudas, como um Transformer. Mobilidade e praticidade é tudo. No quesito mochilas as opções são muitas. Um blog especializado em artigos de viagem recomenda não se empolgar com o tamanho e usar mochilas com capacidade entre 40 e 75L. Mais do que isso lhe causará incômodo e dores nas costas. Quanto mais bolsos e portas-troço melhor. Tudo compartimentado para otimizar o aproveitamento de espaços. Versões miniaturas de pastas de dente e xampus nos kits limpeza, roupas dentro de sacos a vácuo, kit saúde e baterias recarregáveis para os eletrônicos indispensáveis. Há quem passe meses viajando com uma única e leve mochila nas costas – uma espécie de tartaruga com toda a casa no lombo. Melhor ainda se a mochila tiver rodinhas e puder ser arrastada.

Mochila da REI
O que dizer de toda essa febre em torno de viajar, que vemos na internet? Acho que cada vez mais pessoas descobrem o quanto é bom poder conhecer novas paragens, novas culturas e novas pessoas. O efeito disso é um mundo cada vez mais global. Se perdemos em originalidade ou em manutenção de tradições, ganhamos em entendimento entre os povos, troca de experiências e diminuição de preconceitos mútuos.

E você, o que está esperando?

Sábado, Dezembro 31, 2011

Novos ares


Fim de ano. Estou em Brasília, onde tudo é mais calmo nessa época do ano. O trânsito está tranquilo, há vagas para estacionar. As filas no supermercado estão pequenas e a vida é boa. Até tem ventado esses dias. Estive em Natal (cidade) na última semana e passei o Natal (aniversário de Jesus) com familiares, matando saudades.

De volta à rotina de trabalho, a mente paira inquieta. Assim mesmo, com as palavras “paira” e “inquieta” contraditoriamente lado a lado. Ela planeja o futuro, amassa papéis e replaneja tudo novamente. Há opções, boas expectativas, um clima bom no ar. Estou lendo livros sobre tecnologia, empresas de sucesso, prosperidade. Um sobre o Google, outro sobre Steve Jobs. Em paralelo, ouço um pouco de Coldplay. Até pouco tempo atrás achava que a banda não passava de um simulacro do Radiohead, com pitadas de U2. Após vê-los no Show do Rock in Rio, pela televisão, e ouvir mais atentamente ao álbum Viva La Vida, passei a vê-los com bons olhos. As músicas são simples e belas, portadoras do espírito dos tempos atuais – o nosso zeitgeist.

Quanto ao blog, esse foi o ano de maior número de posts. Vendo a trajetória tortuosa deste espaço cibernético desde 2006, noto a inconstância de seu autor. Sempre mudando o rumo e, talvez por isso, sempre se surpreendendo com o que está à frente. Esse ano um certo direcionamento foi dado. De forma natural e orgânica os textos vão focando em viagens. Talvez nunca atraia lá tantos leitores, afinal não tenho prestado informações tão úteis assim. Ao contrário, tento sempre levar a experiência para o lado mais pessoal e deixar os textos um pouco mais literários.

Vejamos o que nos aguarda esse ano.

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

Uma pintura chamada San Francisco

Esse texto resultou da viagem de férias, durante o mês de outubro, em que eu e Marie passamos por Las Vegas, Grand Canyon, Los Angeles, Cambria, Carmel-by-the-sea e San Francisco.

Bastou chegarmos a San Francisco de carro para perceber que estávamos de volta a uma cidade grande. No meio de um trânsito infernal e com o GPS tendo dificuldades de nos localizar entre aqueles edifícios altos, deixamos as malas na recepção do hotel, cujo check-in ainda demoraria algumas horas, e largamos o Black Armageddon na locadora. Após dez dias motorizados era bom sentir a liberdade de depender apenas das próprias pernas. Em uma cidade como San Francisco era essencial ter a mobilidade de um pedestre. Um carro ali seria um estorvo.

Demos uma volta pela Union Square e logo vimos que teríamos que parar para almoçar e descansar as costas do peso da mochila. Existe uma Macy’s exatamente de frente para a praça e na sua cobertura há um restaurante chamado Cheese Cake Factory, que é uma franquia daquela região. Apesar da localização pomposa e das instalações impecáveis, a refeição saiu a um ótimo custo-benefício. Pedi uma salada que cumpriu o papel de almoço e de lanche da tarde. Marie pediu um prato bonito com camarões. Gostamos tanto que acabamos voltando lá outras duas vezes.
Union Square vista de cima da Macy's
Recuperados, fomos até o Centro de Visitantes que tem perto dali, na Market Street. Uma indiana chamada Anita, residente há mais de vinte anos em San Francisco, foi bem simpática e nos deu boas dicas de lugares para conhecer. Misturamos suas orientações com nosso planejamento prévio e nos munimos de mapas. O mais complicado em San Francisco acabou sendo se acostumar com o sistema de transporte público deles, que mistura bondes, ônibus, metrôs e trens. Os carros circulam juntamente com bicicletas, pedestres e todas as opções de transporte coletivo. Apesar da aparente zona, dá certo.
De volta ao hotel, nos livramos do peso excessivo e tomamos um banho. O Baldwin Hotel é um desses pequenos hotéis incrustados no centro da cidade, a uma curta distância da Union Square e com fácil acesso a todos os bairros. Sobre a cama demos de cara com um elefantinho feito de toalhas. Nos dias seguintes, todos os dias um animal diferente era moldado com toalhas de rosto. Provavelmente, a arte era obra de um dos muitos funcionários chineses que tomavam conta do hotel. Estávamos a meros cinqüenta metros do portão ornamentado que marcava a entrada do bairro de Chinatown. E para lá fomos após o banho. Como era de se esperar havia muita quinquilharia exposta em vitrines e calçadas, muitas comidas exóticas e lojas de eletrônicos de origem duvidosa. Por entre prédios antigos e pequenos, de telhados curvados e ornados com bandeirinhas de motivos chineses, podíamos ver o alto edifício Transamerica com seu formato piramidal. Após caminharmos um pouco notamos que ladeiras de forte declividade seriam nossas companheiras durante nossa estadia em San Francisco. Na incrivelmente íngreme California Street os cabos subterrâneos que tracionam os bondinhos pareciam estar sendo tensionados ao limite, emitindo um urro mecânico enferrujado.
Arte chinesa no Baldwin Hotel
Edifício Transamerica visto de Chinatown
No dia seguinte fizemos um dos melhores passeios da viagem. Alugamos bicicletas perto do Pier 1 e pedalamos ao longo de toda a baía, em direção à Ponte Golden Gate. Lá perto do stand das bicicletas, diversas pessoas se encontravam prostradas sob barracas na praça, em protesto. Elas faziam parte do movimento Occupy San Francisco, análogo ao mais famoso Occupy Wall Street. Difícil é saber contra quem eles devem direcionar os protestos. No Pier 39 assistimos os famosos leões marinhos se espreguiçando sob o sol, em tablados flutuantes de madeira. Ao contrário de zonas portuárias de outras cidades, a baía de San Francisco consegue equilibrar bem a bela paisagem, o vai e vem de turistas e o cheiro de peixe.
Occupy San Francisco
Ao nos aproximarmos da ponte paramos diversas vezes para tirar fotos, pois por cada lugar que passávamos descobríamos um ângulo mais interessante. Subimos algumas ladeiras mais cruéis, que deram uma injeção de ácido lático nas minhas coxas. Lá em cima Marie zombava da minha falta de preparo e de jeito com a magrela. Já sobre a ponte pudemos ver de perto os cabos pênseis que a sustentam, com aproximadamente um metro de diâmetro. É fácil perceber por que a Golden Gate com seu visual retrô ainda atrai todas as atenções, mesmo com uma ponte rival mais nova e arrojada. Para a época em que foi construída, foi um feito e tanto.
Golden Gate
Do outro lado da ponte há a simpática Sausalito. Prendemos as bicicletas em uma das estruturas de aço que há em uma praça, já preparadas para atender os muitos turistas que chegam pedalando. Almoçamos um fish and chips no estilo fast-food. Depois demos uma olhada numa pequena livraria cuja dona, ao saber que éramos brasileiros, exaltou nossa economia e o ex-presidente Lula. Pegamos nossas bicicletas e entramos no ferry que nos levaria de volta para San Francisco. Do barco tem-se uma bonita vista de Sausalito, com suas casinhas coloridas sobre uma encosta, que lembra aquelas cidades mediterrâneas gregas ou italianas. Ou pelo menos assim eu as imagino.
Sausalito
Após devolvermos as bicicletas fomos de bonde até à curvilínea Lombard Street. Enquanto carros desciam se contorcendo, vagarosamente, turistas japoneses lutavam para tirar uma foto da rua e seus jardins. Ali perto havia o San Francisco Arts Institute. Uma das dicas meio exótica de Anita. Entramos no antigo prédio sem sermos interpelados por ninguém. O clima meio que de abandono lembrava o de uma universidade pública no Brasil. Assim, demos uma rápida olhada num salão que expunha obras meio malucas de um tal Diego Rivera, expiamos algumas salas onde estudantes pintavam e voltamos para o hotel. Lá fomos recebidos por um caranguejo de toalha.
Na manhã seguinte pegamos um barco para conhecer a ilha de Alcatraz, onde funcionava a prisão federal mais famosa dos EUA e hoje é a atração mais visitada de San Francisco. É impossível não imaginar que se está indo para um parque temático, mas a preservação das celas e das instalações do presídio é tão boa que logo apagamos esse preconceito da mente. Logo que descemos na ilha um dos rangers passa a dar instruções sobre tudo que é permitido e sobre tudo que é proibido na ilha. Impressionante como nossos amigos americanos são obcecados com controle. Pouco depois ele passou a palavra para a neta-sobrinha de Al Capone, que estava autografando seu recém-lançado livro “Uncle Al Capone”. Ela contou que após anos vivendo com outro nome e numa espécie de negação da história de sua família, resolveu assumir-se como uma Capone e contar a história de seu famoso tio-avô. Sob a perspectiva da família dela a mídia fez dele um monstro que não condizia com a verdade. Bem, quem sou eu para julgar.
Um dos locais mais tenebrosos de uma prisão é sem dúvida a solitária. Não consigo imaginar o que se passa na cabeça de alguém preso ali. Uma semana deve durar um ano. Houve duas tentativas maiores de fuga de alcatraz. Em uma delas alguns prisioneiros conseguiram sair da prisão e se lançar ao mar. Porém, nunca mais foram vistos, provavelmente devido a fortes correntezas que os afogaram. No entanto, o clima que reinava na ilha durante a grande maioria do tempo em que ela serviu como presídio era o de completo tédio. Talvez isso fosse o que mais perturbava os prisioneiros e até mesmo os guardas. Devido à proximidade com a cidade de San Francisco (algo em torno de dois quilômetros) era possível ouvir o barulho dos fogos de artifícios e das pessoas comemorando, rindo e sendo livres, durante as festas de fim de ano. Uma verdadeira tortura psicológica.
Alcatraz
De volta ao Pier 39 passeamos pelo Fisherman’s Wharf. Voltamos a almoçar um prato de fish and chips, afinal estávamos em uma zona portuária. De tarde entramos em um ônibus que cruzou San Francisco inteira, no sentido leste-oeste, e descemos no Lincoln Park. Na área conhecida como Land’s End há uma paisagem surreal. De um lado uma extensa faixa de areia se estende até onde a vista alcança, margeada por moinhos de vento. No horizonte um navio cargueiro se aproximava da baía, e logo abaixo se viam as ruínas de uma antiga e suntuosa casa de banho (Sutro Baths), construída no final do século 19 por um imigrante alemão que foi prefeito de San Francisco. Ótima opção para o passeio de fim de tarde.
Land's end
No nosso último dia em San Francisco visitamos o Golden Gate Park. Lá visitamos o Japanese Tea Garden que é muito bonito e tem um clima perfeito para relaxar o corpo e enlevar a mente. Após passear entre os jardins, esquilos e pequenas pontes de pedra e madeira, sentamos para tomar um chá, acompanhado de biscoitos japoneses. Ainda no parque fomos para o de Young Museum. Também por dica de Anita subimos de elevador na torre contígua ao museu. No topo há um salão envidraçado com uma vista interessante de San Francisco e do telhado do California Academy of Sciences, que imita um gramado ondulado. Dentro do museu confirmamos mais uma vez a vocação de San Francisco para as artes. Vimos vários estudantes de arte pintando ou desenhando, tendo como modelo algumas das obras expostas. Antes já havíamos visto escolas de arte espalhadas pela cidade, lojas que vendem material para pintura, estudantes de diferentes países discutindo animadamente sobre artes dentro de um ônibus. Parece haver mais artistas do que consumidores de arte. A cidade é realmente inspiradora.
Paz e amor no Japanese Tea Garden
Obra intrigante no de Young Museum - catedral gótica feita de armas, balas e ossos humanos
Na hora do almoço comemos pela terceira vez um fish and chips. Dessa vez acertamos em cheio. Na saída do Golden Gate Park tem um restaurante chamado Fish Grill. O prato estava uma delícia e a cerveja escura como acompanhamento caiu muito bem.
À tarde tivemos que conhecer o subúrbio de San Francisco para ir até a Best Buy, a fim de comprar um computador. Não há lojas de eletrônicos na parte central ou turística da cidade, com exceção da loja da Apple. De noite voltamos ao Cheese Cake Factory na cobertura da Macy’s para um jantar no melhor estilo “to nem aí, é meu último dia de férias”. Empanturramos-nos com uma pizza e dois milk-shakes violentos. Na mesa ao lado, coincidentemente, jantava um casal de Natal-RN com um filho pequeno e a mãe de um deles. Ficaram felizes por nos encontrar e contaram histórias sobre terremotos e sobre morar fora. A moça tinha vindo para fazer um doutorado em engenharia e seu marido abriu uma empresa. E haja brasileiro espalhado pelo mundo.
Na manhã seguinte fomos para o aeroporto, com as malas abarrotadas de boas lembranças e o peito cheio de esperança de voltar a viajar em breve. Afinal, uma vez que sua mente pisou na estrada, ela sempre voltará para lá.