Jon Krakauer é um alpinista que encontrou na escrita seu talento maior. Ele é daqueles autores que fazem parecer fácil escrever. Histórias para contar ele tem aos montes, como a fantástica aventura vivida no Everest, narrada no livro “No ar rarefeito”, em que muitas mortes ocorreram em poucos dias, devido a uma tempestade que atingiu o cume da montanha. Ao contrário de outros livros ou documentários sobre escalada e sobre o Everest, a realidade parece saltar das palavras escritas por ele, com uma sinceridade às vezes cortante de tão perturbadora. Outro livro interessante dele sobre alpinismo é o “Sobre homens e montanhas”, com uma coletânea de reportagens dele. Talvez o mais famoso livro dele seja o “Na natureza selvagem”, cuja história real de Chris McCandless emociona pela beleza utópica da juventude que todos nós um dia experimentamos. Este livro gerou um belo filme de Sean Penn.Recentemente terminei mais um livro de Jon Krakauer. Desta vez Krakauer mexe num tema que é um verdadeiro vespeiro: a religião. Ele aborda uma religião específica, tipicamente norte-americana, que é o mormonismo, no livro chamado “Pela bandeira do Paraíso”. Na verdade o livro aborda principalmente um crime cometido por dois fundamentalistas mórmons, que assassinaram uma mulher e sua filha pequena, alegando estar cumprindo ordens divinas.
Ele também dá uma perspectiva geral da religião. Tudo começou com Joseph Smith, que, guiado por um anjo chamado Moroni, em 1827, encontrou umas placas de ouro enterradas, que só podiam ser lidas com óculos dados pelo anjo, que permitiam decifrar o que diziam as placas. Este óculos sumiu após a leitura feita por Joseph Smith, o que impossibilitou que outras pessoas lessem as placas. A partir delas ele escreveu o Livro de Mórmons, que equivale à Bíblia deles. Após conseguir dinheiro emprestado com um amigo e imprimir umas poucas cópias do livro, fundou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que tem esse nome devido à crença dos mórmons de que o fim do mundo estaria próximo, e que somente eles se salvarão da fúria divina.
Obviamente não faltam críticos a religião dos mórmons, que encontraram várias falhas contextuais e históricas no livro base da religião e que por isso zombam da crença deles. Krakauer consegue, em um parágrafo, resumir bem a idéia de como o fato de ser uma religião moderna (nova) atrapalha o mormonismo:
“Essas críticas e zombarias, entretanto, não são relevantes. Todas as crenças religiosas derivam de fé não-racional. E a fé, por definição, tende a ser imune à argumentação intelectual ou à crítica acadêmica. Além disso, constantemente as pesquisas indicam que nove em cada dez norte-americanos acreditam em Deus – a maioria segue alguma forma de religião. Os que atacam O livro de mórmon devem ter em mente que sua veracidade é tão duvidosa quanto a da Bíblia, ou a do Corão, ou a das escrituras sagradas da maioria das demais religiões. Esses últimos textos simplesmente têm a considerável vantagem de haverem aparecido publicamente nos recessos sombrios do passado remoto, sendo por isso muito mais difíceis de refutar.”
No início do século XX houve um racha na religião mórmon, causado principalmente pela divergência de opiniões quanto a um antigo costume mórmon: a poligamia. Antigamente os mórmons acreditavam ser a vontade de Deus que um homem tivesse várias esposas e tivessem o máximo número de descendentes. O problema é que eles desposam inclusive meninas de 14 anos, que muitas vezes não têm como refutar o pedido de um dos membros da comunidade. Surgiram os Fundamentalistas Mórmons, que seguem poligâmicos e bem mais xiitas (não literalmente) quanto à religião, e os Mórmons, que têm sede em Salt Lake City, estado de Utah, e adotaram uma forma mais branda, banindo a poligamia, após pressão do governo americano.
Os irmãos Lafferty, fundamentalistas e de uma família de tradição mórmon, mataram a cunhada deles (esposa de um terceiro irmão) e sua filha pequena, após receberem ordem expressa de Deus de eliminá-la. Essa mulher influenciava seu marido, no sentido de não aceitar tudo que era imposto pelos fundamentalistas. Um desses irmãos segue no corredor da morte, e após ser entrevistado por Krakauer, não demonstra nenhum arrependimento, pois para ele era uma questão de cumprir ordens.
Para maiores detalhes recomendo a leitura do livro que é muito bom. Ressalto ainda a importante reflexão que o autor faz sobre os limites entre o que deve ser respeitado como fé e o que ultrapassa limites que a justiça impõe a todo homem independente de religião. Pode ficar fácil qualquer um alegar que, se fez algo errado, o fez pela fé, e por possuir liberdade religiosa não deve ser punido. Complicada questão!
Outra boa passagem do livro:
“Será que Dan (um dos irmãos) acredita que a sinceridade das crenças deles justifica seus atos? E, se não é assim, como pode Dan saber se o que ele fez não é tão equivocado quanto o que os seguidores de Bin Laden cometeram em 11 de setembro, apesar da evidente sinceridade de sua própria fé?”
Dan responde a essa pergunta dizendo que “... eles seguiam um falso profeta, e eu não.” Simples, não é?
Para fechar, ao entrevistar Deloy, um cara que resolveu deixar a religião fundamentalista por não concordar com seus métodos, ele ouve o seguinte:
“Se você quer saber a verdade, creio que as pessoas que estão na religião – a gente que mora em Colorado City (reduto de alguns fundamentalistas) – são provavelmente mais felizes, em geral, do que os que estão do lado de fora. Mas algumas coisas na vida são mais importantes do que ser feliz. Por exemplo, ser livre para pensar por si mesmo.”



