Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Pela Bandeira do Paraíso – Jon Krakauer

Jon Krakauer é um alpinista que encontrou na escrita seu talento maior. Ele é daqueles autores que fazem parecer fácil escrever. Histórias para contar ele tem aos montes, como a fantástica aventura vivida no Everest, narrada no livro “No ar rarefeito”, em que muitas mortes ocorreram em poucos dias, devido a uma tempestade que atingiu o cume da montanha. Ao contrário de outros livros ou documentários sobre escalada e sobre o Everest, a realidade parece saltar das palavras escritas por ele, com uma sinceridade às vezes cortante de tão perturbadora. Outro livro interessante dele sobre alpinismo é o “Sobre homens e montanhas”, com uma coletânea de reportagens dele. Talvez o mais famoso livro dele seja o “Na natureza selvagem”, cuja história real de Chris McCandless emociona pela beleza utópica da juventude que todos nós um dia experimentamos. Este livro gerou um belo filme de Sean Penn.

Recentemente terminei mais um livro de Jon Krakauer. Desta vez Krakauer mexe num tema que é um verdadeiro vespeiro: a religião. Ele aborda uma religião específica, tipicamente norte-americana, que é o mormonismo, no livro chamado “Pela bandeira do Paraíso”. Na verdade o livro aborda principalmente um crime cometido por dois fundamentalistas mórmons, que assassinaram uma mulher e sua filha pequena, alegando estar cumprindo ordens divinas.

Ele também dá uma perspectiva geral da religião. Tudo começou com Joseph Smith, que, guiado por um anjo chamado Moroni, em 1827, encontrou umas placas de ouro enterradas, que só podiam ser lidas com óculos dados pelo anjo, que permitiam decifrar o que diziam as placas. Este óculos sumiu após a leitura feita por Joseph Smith, o que impossibilitou que outras pessoas lessem as placas. A partir delas ele escreveu o Livro de Mórmons, que equivale à Bíblia deles. Após conseguir dinheiro emprestado com um amigo e imprimir umas poucas cópias do livro, fundou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que tem esse nome devido à crença dos mórmons de que o fim do mundo estaria próximo, e que somente eles se salvarão da fúria divina.

Obviamente não faltam críticos a religião dos mórmons, que encontraram várias falhas contextuais e históricas no livro base da religião e que por isso zombam da crença deles. Krakauer consegue, em um parágrafo, resumir bem a idéia de como o fato de ser uma religião moderna (nova) atrapalha o mormonismo:

“Essas críticas e zombarias, entretanto, não são relevantes. Todas as crenças religiosas derivam de fé não-racional. E a fé, por definição, tende a ser imune à argumentação intelectual ou à crítica acadêmica. Além disso, constantemente as pesquisas indicam que nove em cada dez norte-americanos acreditam em Deus – a maioria segue alguma forma de religião. Os que atacam O livro de mórmon devem ter em mente que sua veracidade é tão duvidosa quanto a da Bíblia, ou a do Corão, ou a das escrituras sagradas da maioria das demais religiões. Esses últimos textos simplesmente têm a considerável vantagem de haverem aparecido publicamente nos recessos sombrios do passado remoto, sendo por isso muito mais difíceis de refutar.”

No início do século XX houve um racha na religião mórmon, causado principalmente pela divergência de opiniões quanto a um antigo costume mórmon: a poligamia. Antigamente os mórmons acreditavam ser a vontade de Deus que um homem tivesse várias esposas e tivessem o máximo número de descendentes. O problema é que eles desposam inclusive meninas de 14 anos, que muitas vezes não têm como refutar o pedido de um dos membros da comunidade. Surgiram os Fundamentalistas Mórmons, que seguem poligâmicos e bem mais xiitas (não literalmente) quanto à religião, e os Mórmons, que têm sede em Salt Lake City, estado de Utah, e adotaram uma forma mais branda, banindo a poligamia, após pressão do governo americano.

Os irmãos Lafferty, fundamentalistas e de uma família de tradição mórmon, mataram a cunhada deles (esposa de um terceiro irmão) e sua filha pequena, após receberem ordem expressa de Deus de eliminá-la. Essa mulher influenciava seu marido, no sentido de não aceitar tudo que era imposto pelos fundamentalistas. Um desses irmãos segue no corredor da morte, e após ser entrevistado por Krakauer, não demonstra nenhum arrependimento, pois para ele era uma questão de cumprir ordens.

Para maiores detalhes recomendo a leitura do livro que é muito bom. Ressalto ainda a importante reflexão que o autor faz sobre os limites entre o que deve ser respeitado como fé e o que ultrapassa limites que a justiça impõe a todo homem independente de religião. Pode ficar fácil qualquer um alegar que, se fez algo errado, o fez pela fé, e por possuir liberdade religiosa não deve ser punido. Complicada questão!

Outra boa passagem do livro:

“Será que Dan (um dos irmãos) acredita que a sinceridade das crenças deles justifica seus atos? E, se não é assim, como pode Dan saber se o que ele fez não é tão equivocado quanto o que os seguidores de Bin Laden cometeram em 11 de setembro, apesar da evidente sinceridade de sua própria fé?”

Dan responde a essa pergunta dizendo que “... eles seguiam um falso profeta, e eu não.” Simples, não é?

Para fechar, ao entrevistar Deloy, um cara que resolveu deixar a religião fundamentalista por não concordar com seus métodos, ele ouve o seguinte:

“Se você quer saber a verdade, creio que as pessoas que estão na religião – a gente que mora em Colorado City (reduto de alguns fundamentalistas) – são provavelmente mais felizes, em geral, do que os que estão do lado de fora. Mas algumas coisas na vida são mais importantes do que ser feliz. Por exemplo, ser livre para pensar por si mesmo.”

Sábado, Outubro 03, 2009

VOYAGE


Um vento forte me enche os pulmões
Arranca alguns dos meus grossos cabelos
Leva-me a esquecidos rincões
Uma eterna viagem sem sair do lugar

De repente o tempo, outrora tão lento
Passa por mim a trezentos por hora
Mudam o mundo e eu me reinvento
O trem não espera, não volta jamais

Quero ver o fim dessa estrada
Quero ler os seus segredos
Quero estar no fim de tudo

No meio do mato, no meio da noite
A fera me espera pro embate sangrento
É vida ou morte, é tudo ou nada
No meio dos peitos enfio a sola
Pesada de barro do chão lamacento
Selvagem no instinto eu passo a degola
De volta no tempo eu cerro os dentes
Entrego-me à viagem, sem volta!

Quero ver o fim dessa estrada
Quero ler os seus segredos
Quero estar no fim de tudo

No mar sem fim dos meus pensamentos
Perco e encontro o caminho as pedras
Tão irregulares, eu piso em falso
Retomo a viagem, sem sair do lugar

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Caixa eletrônico



Fila do caixa eletrônico, nada mais deprimente. Mas como todo membro do gado eu estava lá. Um cara, atolado em contas, toma conta do caixa com infindáveis boletos. Começo de mês, está perdoado. Além dele há duas pessoas na minha frente. Para trás a fila começa a crescer. A fila, uma das maiores invenções da humanidade, juntamente com o fogo, a roda, a agricultura e o cartão de débito, é também uma das mais brilhantes e sutis máquinas de tortura do bicho homem. Todos trocam o pé de apoio a cada quinze segundos, mas o tempo não acelera por conta disso. Permanece impassível no seu caminhar, segundo a segundo, a Terra a girar, solta no espaço a toda velocidade, uma verdadeira loucura se pararmos para pensar.

Paro de pensar. Um grupo de três seguranças encosta no caixa com uma sacola pesada. Interpelam eu e meus companheiros de fila dizendo que precisam realizar uma operação, que durará no máximo dez minutos. Eles também passam a aguardar o pagador de promessas junto com os demais. Um deles é o líder e cabeça do grupo. Detém um cartão branco que, diferentemente dos nossos cartões dourados, prateados e coloridos, possibilita desarmar a máquina. Outro segura firme a sacola pesada de plástico, e começa a abri-la. O terceiro, o mais alto dos três, tem os olhos vermelhos e arregalados como o matador de Lisbela e o Prisioneiro, e não tira a mão do berro (sempre quis usar essa palavra). O clima fica tenso. Afinal, todos na fila são suspeitos. Passo a respirar profunda e lentamente, evitando movimentos bruscos que possam causar uma reação inconseqüente do olho de fogo. Os três seguranças não param de olhar para todos os lados, se certificando de que ninguém está vindo para assaltar. Com certeza é uma das profissões que mais causam tensão.

Finalmente o homem dos boletos libera o caixa. O líder dos seguranças começa a abrir a máquina como se estivesse desarmando uma bomba. O segundo deles abre o saco e esparrama vários pacotes de notas de 10, 20 e 50 reais pelo chão. Todos suspiram e alguém lá atrás, na fila que agora serpenteia pelo corredor do supermercado, solta um “Noooossa”. Começo a suar frio. Por mais que alguma vez na vida você tenha sido dono de alguns milhares de reais, ao estar na presença deles, ali “in loco”, a emoção é muito mais intensa. E se alguém simplesmente não resistir, tentar agarrar um pacotinho daqueles e sair correndo? O mais engraçado ou ridículo de tudo é que, na realidade, aquela tensão toda estava sendo gerada por pedaços de papel coloridos. Uma criança de um ano de idade poderia brincar com aqueles papéis sem nada sentir de ansiedade. Reduzir as coisas ao que elas realmente são é uma terapia que não tem preço.

A Terra continuava girando, mas o tempo passava bem devagar. Os dez minutos estavam se transformando em vinte. Resolvi ir embora, sem dinheiro, mas feliz por ter conseguido, temporariamente, me abstrair do significado daquelas cédulas.

Domingo, Setembro 20, 2009

Músicas

Comecei a colocar algumas músicas gravadas aqui em casa no endereço abaixo:
Poesia instrumental --> fazia um tempo que eu tinha a base da música, mas não sabia o que acrescentar a ela. Decidi que uma letra e voz provavelmente tirariam a atenção das notas. Uma melodia apareceu durante a gravação, além de um teclado que faz a ambientação no "refrão".
Sidarta --> música composta há muito tempo, cuja letra está numa antiga postagem aqui do blog. Engraçado que aparentemente ela nunca vai soar como eu a imagino na minha mente. Mas gravei da melhor forma que pude. Ela traduz bem uma época de minha vida, na qual a leitura de Herman Hesse se mostrava bem presente.


Outra virão em breve. A gravação com a banda de um homem só é penosa... ;)
Gravada com a Alter Ego tem ainda "Poema esquecido", com o vídeo abaixo:
Alter Ego que, com nova formação, tem duas novas gravações lá no site do myspace (ver link abaixo): "Judas estalou um beijo" e "Rapunzel e a torre de Babel" (ótimas letras)!

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

A nobre arte de escolher frutas



imagem retirada do site: blog.tudosobreplantas.com.br








Você já se deparou com uma cena parecida. Na seção de frutas, à sua direita, um senhor apalpa um mamão em plena luz do dia, pressionando-o levemente com os polegares. À sua esquerda uma mulher levanta um cacho de uvas contra a luz, e examina-o circunspectamente. Você, frente a uma pirâmide de maçãs, pega vários exemplares, girando-as nas mãos antes de, sem critério algum, jogar uma para dentro do carrinho. Que vergonha.

Saber escolher frutas é uma espécie de ofício, passado de pai para filho, como os artesãos de outrora. Mas na era do conhecimento não há saber que não possa ser apreendido. Abaixo seguem algumas dicas colhidas no meio popular:

Técnica do melão:

Segundo um funcionário de uma frutaria, basta apertar os fundos do melão, mais ou menos onde Deus faz a costura da fruta. Se ele estiver cedendo um pouco mais facilmente, o melão está maduro.

Técnica do maracujá:

Tem que balançar. Caso você sinta a polpa se mover lá dentro ele está no ponto. Colocar contra a luz dá mais um charme ao processo.

Técnica do abacaxi:

Puxe um dos “espinhos” da coroa. Caso ele solte, o abacaxi merece respeito.

Técnica do mamão:

Pressione levemente, sem dar unhadas (já vi uma placa em uma frutaria que dizia: “proibido unhar as frutas”). Firmeza excessiva é gelada, moleza demais é podridão. Procure o meio termo.

Acontece que todas essas técnicas exigem uma calibração, experiência e uma dose de sorte. Não são métodos exatos. Vale usar, combinada a esses métodos, a teoria do “quase podre”. Abacaxis, melões e mamões com aparência duvidosa, quase podres por fora (sem exageros é claro), podem esconder uma festa da glicose dentro deles. O perigo é que açúcar e fungos são parentes próximos.

No entanto, recentemente fui surpreendido pela mais simples e eficiente das técnicas de escolha. Numa frutaria próxima de casa, eles simplesmente perguntam à fruta como elas estão. Ao parar em frente aos melões, vi que eles tinham em volta de si uma fita adesiva que dizia: “Sou saboroso”. A princípio duvidei daquela fruta, mas como há tempos não comia um bom melão, resolvi arriscar. O melão estava simplesmente demais! Ele podia inclusive ter dito: “Eu estou uma coisa!” ou “Eu sou um pecado!”

Desde então não deixei mais de dar ouvidos às frutas. Ninguém melhor do que elas para dizer o que se passa no seu interior.

Quinta-feira, Agosto 13, 2009

Rejects - Green

A banda potiguar Rejects lança seu novo EP intitulado “Green”, com cinco músicas inéditas, mais um bonus track da faixa única que a banda lançou há três meses intitulada Devil`s Corner.

O som é bem pauleira e direto, com destaque para o vocal rasgado e a coesão guitarra/baixo, criando um som grave e denso, acompanhado de um batera empolgado. Vale a pena ouvir e aguardar novos trabalhos dos caras.

O download do EP é gratuito. Basta clicar no link abaixo.

http://www.dosol.com.br/wp-content/plugins/download-monitor/download.php?id=6

1. GET UP (A. Foca./ J.Cortez / Dante Augsuto)2. DAMAGE DONE (A. Foca / J. Cortez)3. TRUST (A. Foca / J. Cortez / Dante Augusto)4. GRIDLOCK (J. Cortez)5. MAKIN`A MESS (J. Cortez / Mairena)6. Devil`s Corner EP (Bonus Track)

Rejects é:
Anderson Foca - Baixo e Voz
Júlio Cortez - Guitarra e Voz
Marcelo Costa - Bateria

www.myspace.com/rejectsrock
www.fotolog.net/rejects_band

Sexta-feira, Agosto 07, 2009

Overheard in Brasília III

BASTA TOMAR UM BANHO POR DIA

Dentro de um elevador semi-lotado, a porta abre em um andar intermediário:
[Garota do lado de fora para amiga]: “ih...tá lotado!”
[Senhor cansado do lado de dentro]: “ainda cabe” (todos se encolhem)
[Garota do lado de fora]: “não, a gente vai no próximo...” Murmura para amiga: “gripe suína”
A porta fecha, todos se entreolham.
[Senhor cansado do lado de dentro]: "chamou a gente de porco."
overheard by "Prendendo a respiração"