Esse texto resultou da viagem de férias, durante o mês de outubro, em que eu e Marie passamos por Las Vegas, Grand Canyon, Los Angeles, Cambria, Carmel-by-the-sea e San Francisco.
Bastou chegarmos a San Francisco de carro para perceber que estávamos de volta a uma cidade grande. No meio de um trânsito infernal e com o GPS tendo dificuldades de nos localizar entre aqueles edifícios altos, deixamos as malas na recepção do hotel, cujo check-in ainda demoraria algumas horas, e largamos o Black Armageddon na locadora. Após dez dias motorizados era bom sentir a liberdade de depender apenas das próprias pernas. Em uma cidade como San Francisco era essencial ter a mobilidade de um pedestre. Um carro ali seria um estorvo.
Demos uma volta pela Union Square e logo vimos que teríamos que parar para almoçar e descansar as costas do peso da mochila. Existe uma Macy’s exatamente de frente para a praça e na sua cobertura há um restaurante chamado Cheese Cake Factory, que é uma franquia daquela região. Apesar da localização pomposa e das instalações impecáveis, a refeição saiu a um ótimo custo-benefício. Pedi uma salada que cumpriu o papel de almoço e de lanche da tarde. Marie pediu um prato bonito com camarões. Gostamos tanto que acabamos voltando lá outras duas vezes.
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| Union Square vista de cima da Macy's |
Recuperados, fomos até o Centro de Visitantes que tem perto dali, na Market Street. Uma indiana chamada Anita, residente há mais de vinte anos em San Francisco, foi bem simpática e nos deu boas dicas de lugares para conhecer. Misturamos suas orientações com nosso planejamento prévio e nos munimos de mapas. O mais complicado em San Francisco acabou sendo se acostumar com o sistema de transporte público deles, que mistura bondes, ônibus, metrôs e trens. Os carros circulam juntamente com bicicletas, pedestres e todas as opções de transporte coletivo. Apesar da aparente zona, dá certo.
De volta ao hotel, nos livramos do peso excessivo e tomamos um banho. O Baldwin Hotel é um desses pequenos hotéis incrustados no centro da cidade, a uma curta distância da Union Square e com fácil acesso a todos os bairros. Sobre a cama demos de cara com um elefantinho feito de toalhas. Nos dias seguintes, todos os dias um animal diferente era moldado com toalhas de rosto. Provavelmente, a arte era obra de um dos muitos funcionários chineses que tomavam conta do hotel. Estávamos a meros cinqüenta metros do portão ornamentado que marcava a entrada do bairro de Chinatown. E para lá fomos após o banho. Como era de se esperar havia muita quinquilharia exposta em vitrines e calçadas, muitas comidas exóticas e lojas de eletrônicos de origem duvidosa. Por entre prédios antigos e pequenos, de telhados curvados e ornados com bandeirinhas de motivos chineses, podíamos ver o alto edifício Transamerica com seu formato piramidal. Após caminharmos um pouco notamos que ladeiras de forte declividade seriam nossas companheiras durante nossa estadia em San Francisco. Na incrivelmente íngreme California Street os cabos subterrâneos que tracionam os bondinhos pareciam estar sendo tensionados ao limite, emitindo um urro mecânico enferrujado.
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| Arte chinesa no Baldwin Hotel |
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| Edifício Transamerica visto de Chinatown |
No dia seguinte fizemos um dos melhores passeios da viagem. Alugamos bicicletas perto do Pier 1 e pedalamos ao longo de toda a baía, em direção à Ponte Golden Gate. Lá perto do stand das bicicletas, diversas pessoas se encontravam prostradas sob barracas na praça, em protesto. Elas faziam parte do movimento Occupy San Francisco, análogo ao mais famoso Occupy Wall Street. Difícil é saber contra quem eles devem direcionar os protestos. No Pier 39 assistimos os famosos leões marinhos se espreguiçando sob o sol, em tablados flutuantes de madeira. Ao contrário de zonas portuárias de outras cidades, a baía de San Francisco consegue equilibrar bem a bela paisagem, o vai e vem de turistas e o cheiro de peixe.
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| Occupy San Francisco |
Ao nos aproximarmos da ponte paramos diversas vezes para tirar fotos, pois por cada lugar que passávamos descobríamos um ângulo mais interessante. Subimos algumas ladeiras mais cruéis, que deram uma injeção de ácido lático nas minhas coxas. Lá em cima Marie zombava da minha falta de preparo e de jeito com a magrela. Já sobre a ponte pudemos ver de perto os cabos pênseis que a sustentam, com aproximadamente um metro de diâmetro. É fácil perceber por que a Golden Gate com seu visual retrô ainda atrai todas as atenções, mesmo com uma ponte rival mais nova e arrojada. Para a época em que foi construída, foi um feito e tanto.
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| Golden Gate |
Do outro lado da ponte há a simpática Sausalito. Prendemos as bicicletas em uma das estruturas de aço que há em uma praça, já preparadas para atender os muitos turistas que chegam pedalando. Almoçamos um fish and chips no estilo fast-food. Depois demos uma olhada numa pequena livraria cuja dona, ao saber que éramos brasileiros, exaltou nossa economia e o ex-presidente Lula. Pegamos nossas bicicletas e entramos no ferry que nos levaria de volta para San Francisco. Do barco tem-se uma bonita vista de Sausalito, com suas casinhas coloridas sobre uma encosta, que lembra aquelas cidades mediterrâneas gregas ou italianas. Ou pelo menos assim eu as imagino.
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| Sausalito |
Após devolvermos as bicicletas fomos de bonde até à curvilínea Lombard Street. Enquanto carros desciam se contorcendo, vagarosamente, turistas japoneses lutavam para tirar uma foto da rua e seus jardins. Ali perto havia o San Francisco Arts Institute. Uma das dicas meio exótica de Anita. Entramos no antigo prédio sem sermos interpelados por ninguém. O clima meio que de abandono lembrava o de uma universidade pública no Brasil. Assim, demos uma rápida olhada num salão que expunha obras meio malucas de um tal Diego Rivera, expiamos algumas salas onde estudantes pintavam e voltamos para o hotel. Lá fomos recebidos por um caranguejo de toalha.
Na manhã seguinte pegamos um barco para conhecer a ilha de Alcatraz, onde funcionava a prisão federal mais famosa dos EUA e hoje é a atração mais visitada de San Francisco. É impossível não imaginar que se está indo para um parque temático, mas a preservação das celas e das instalações do presídio é tão boa que logo apagamos esse preconceito da mente. Logo que descemos na ilha um dos rangers passa a dar instruções sobre tudo que é permitido e sobre tudo que é proibido na ilha. Impressionante como nossos amigos americanos são obcecados com controle. Pouco depois ele passou a palavra para a neta-sobrinha de Al Capone, que estava autografando seu recém-lançado livro “Uncle Al Capone”. Ela contou que após anos vivendo com outro nome e numa espécie de negação da história de sua família, resolveu assumir-se como uma Capone e contar a história de seu famoso tio-avô. Sob a perspectiva da família dela a mídia fez dele um monstro que não condizia com a verdade. Bem, quem sou eu para julgar.
Um dos locais mais tenebrosos de uma prisão é sem dúvida a solitária. Não consigo imaginar o que se passa na cabeça de alguém preso ali. Uma semana deve durar um ano. Houve duas tentativas maiores de fuga de alcatraz. Em uma delas alguns prisioneiros conseguiram sair da prisão e se lançar ao mar. Porém, nunca mais foram vistos, provavelmente devido a fortes correntezas que os afogaram. No entanto, o clima que reinava na ilha durante a grande maioria do tempo em que ela serviu como presídio era o de completo tédio. Talvez isso fosse o que mais perturbava os prisioneiros e até mesmo os guardas. Devido à proximidade com a cidade de San Francisco (algo em torno de dois quilômetros) era possível ouvir o barulho dos fogos de artifícios e das pessoas comemorando, rindo e sendo livres, durante as festas de fim de ano. Uma verdadeira tortura psicológica.
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| Alcatraz |
De volta ao Pier 39 passeamos pelo Fisherman’s Wharf. Voltamos a almoçar um prato de fish and chips, afinal estávamos em uma zona portuária. De tarde entramos em um ônibus que cruzou San Francisco inteira, no sentido leste-oeste, e descemos no Lincoln Park. Na área conhecida como Land’s End há uma paisagem surreal. De um lado uma extensa faixa de areia se estende até onde a vista alcança, margeada por moinhos de vento. No horizonte um navio cargueiro se aproximava da baía, e logo abaixo se viam as ruínas de uma antiga e suntuosa casa de banho (Sutro Baths), construída no final do século 19 por um imigrante alemão que foi prefeito de San Francisco. Ótima opção para o passeio de fim de tarde.
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| Land's end |
No nosso último dia em San Francisco visitamos o Golden Gate Park. Lá visitamos o Japanese Tea Garden que é muito bonito e tem um clima perfeito para relaxar o corpo e enlevar a mente. Após passear entre os jardins, esquilos e pequenas pontes de pedra e madeira, sentamos para tomar um chá, acompanhado de biscoitos japoneses. Ainda no parque fomos para o de Young Museum. Também por dica de Anita subimos de elevador na torre contígua ao museu. No topo há um salão envidraçado com uma vista interessante de San Francisco e do telhado do California Academy of Sciences, que imita um gramado ondulado. Dentro do museu confirmamos mais uma vez a vocação de San Francisco para as artes. Vimos vários estudantes de arte pintando ou desenhando, tendo como modelo algumas das obras expostas. Antes já havíamos visto escolas de arte espalhadas pela cidade, lojas que vendem material para pintura, estudantes de diferentes países discutindo animadamente sobre artes dentro de um ônibus. Parece haver mais artistas do que consumidores de arte. A cidade é realmente inspiradora.
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| Paz e amor no Japanese Tea Garden |
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| Obra intrigante no de Young Museum - catedral gótica feita de armas, balas e ossos humanos |
Na hora do almoço comemos pela terceira vez um fish and chips. Dessa vez acertamos em cheio. Na saída do Golden Gate Park tem um restaurante chamado Fish Grill. O prato estava uma delícia e a cerveja escura como acompanhamento caiu muito bem.
À tarde tivemos que conhecer o subúrbio de San Francisco para ir até a Best Buy, a fim de comprar um computador. Não há lojas de eletrônicos na parte central ou turística da cidade, com exceção da loja da Apple. De noite voltamos ao Cheese Cake Factory na cobertura da Macy’s para um jantar no melhor estilo “to nem aí, é meu último dia de férias”. Empanturramos-nos com uma pizza e dois milk-shakes violentos. Na mesa ao lado, coincidentemente, jantava um casal de Natal-RN com um filho pequeno e a mãe de um deles. Ficaram felizes por nos encontrar e contaram histórias sobre terremotos e sobre morar fora. A moça tinha vindo para fazer um doutorado em engenharia e seu marido abriu uma empresa. E haja brasileiro espalhado pelo mundo.
Na manhã seguinte fomos para o aeroporto, com as malas abarrotadas de boas lembranças e o peito cheio de esperança de voltar a viajar em breve. Afinal, uma vez que sua mente pisou na estrada, ela sempre voltará para lá.