Um dos grandes motivos de estresse no dia-a-dia do bicho humano pós-moderno e globalizado é o tal do celular. A princípio ele veio para ajudar e cativou a todos com suas funções extras e cores variadas. Ao trocar de celular, o que é tão comum quanto rico trocar de carro hoje em dia, o usuário (seu drogado!) já sai todo serelepe da loja, escolhendo o seu toque e escarafunchando aqueles botões minúsculos. Deixa que aquela melodia, seja um toque polifônico (o que significa isso?) ou não, após algumas semanas, vai se tornar, até para o mais ávido entusiasta da telefonia móvel, a sua trilha sonora “from hell”. As notas que não lhe deixam em paz, que interrompem o seu almoço, que lhe traz de volta às preocupações, que o desconcentra e faz arrancar os cabelos. Chega o fatídico dia em que se começa a sonhar com o toque do celular, ou você o ouve onde só existe o silêncio. É a fase da paranóia, Beethoven ou o Bonde do Tigrão o acompanha aonde você for e se apossa do seu ser, fazendo-o inclusive dançar nos momentos de maior insanidade. Mesmo algum tempo após trocar o toque do celular, ao ouvir o tinhoso, vindo agora de outros recantos, você erguerá a sobrancelha com o sentimento de que lhe acharam novamente.
Acontece que um dia, cansado ser escravo do pequenino e abusado eletrodoméstico da nova geração, você resolve deixar ele tocar até se esgoelar, até a bateria arriar seu maldito! Ele insiste, e o volume do toque se torna cada vez mais alto enchendo todo o ambiente, ele faz a tela do seu computador tremer com as ondas da comunicação, ele começa a ranger a madeira da mesa, vibrando e se esfregando nela, tentando lhe alcançar. Você nem dá bola, finge que não é com você, e que ele não significa nada, nada seu verme eletrônico! Até que, numa tentativa desesperada de chamar a atenção, ele toma uma atitude impensada, e se joga do alto da escrivaninha, se espatifando em quatro pedaços, e deixando o amargo sentimento de que aquela tragédia poderia ter sido evitada.
(crônica escrita momentos após ver o celular de meu colega de trabalho levar suas frustrações às vias de fato)

1 comentários:
ae fernando, gostei do texto, muito bom e descontraido.
Voce devia escrever mais.
Visitarei mais vezes para ver atualizaçoes.
abraço
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