Domingo, Julho 01, 2007

Nos braços do sono - In the arms of sleep

(Às vezes escrevemos meio que a esmo e, apesar do texto parecer desconexo, fazer o que, era exatamente o que queríamos escrever...)
Dia desses li um texto que comentava a particular dificuldade de estar consciente no momento em que caímos no sono. Aliás, cair soa bem apropriado como verbo a descrever a experiência. Muitos de nós já tentamos manter tocaia e flagrar o sono no instante em que ele nos enlaça. Porém, sem aviso algum já estamos despertos outra vez e sem entender como tal salto no tempo se deu. Porque é assim que sentimos o dormir, nada menos que um intervalo em que o inconsciente nos domina e ficamos entregues ao mundo, indefesos. Há que se confiar para dormir.

Analogamente, deixamos de ser adolescentes de forma tão obscura que jamais sentimos o momento em que aparecemos perante a sociedade no tosco formato de um adulto. Muitas vezes o amadurecimento nem se deu por completo, nem nunca se dará, e ainda agimos como se o tivéssemos alcançado. Há quem diga que se pode marcar o ritual de forma clara, como, por exemplo, quando começamos a trabalhar. O trabalho enobrece o homem, isso é verdade, mas ele faz muito mais do que isso por nós. Ele também nos catapulta a situações nunca antes imaginadas. Faz-nos lutar pela sobrevivência, pelo que é nosso direito, por tudo que se considera justo, e ajuda a trazer harmonia, tudo num só pacote que pode ser carregado com suavidade e destreza, ou com sacrifício e pesar. Parece mentira, mas somos nós quem decide o que sentimos, independentemente do que ocorre à nossa volta.

Para que algo de bom aconteça é necessário, primeiramente, que alguém o imagine. Com esse singelo primeiro passo tudo passa a ser possível. Objetivos, concentração e procedimentos disciplinados são a chave para se obter qualquer coisa. Nos anos 80, um jovem em Chicago escrevia músicas, sozinho num apartamento frio, sem dinheiro e sem perspectivas. Mas eis que ele se conscientiza, ao ouvir suas próprias gravações, de que ele podia fazer tudo o que ele desejava. A partir do momento em que ele próprio passou a acreditar no potencial de suas composições ele passou a ser o dono absoluto de seu destino. Com o final da sua história já escrito em sua mente ele só precisou percorrer tudo o que ele planejou até o fim de sua visão. Obviamente, o fato de ele ter decidido ser quem ele queria ser naquela noite não era o suficiente para que seus sonhos se realizassem, mas era estritamente necessário. Sua infância fora conturbada devido a abusos por parte de seu pai e madrasta, que tornaram sua própria casa o último lugar para o qual ele gostaria de voltar no fim do dia. Sua autoconfiança caiu por terra após tantos anos de massacre psicológico, e somente uma revolução no seu íntimo foi capaz de trazer-lhe de volta o que chamamos dignidade.

A banda por ele formada não mudou o mundo, e nem passou perto de algo tão importante. Mas mexeu com a mente de muitas pessoas, seus pequenos mundos e tudo o que gravita em torno deles. Suas belas letras e melodias e suas habilidades individuais e coletivas de nada valeriam sem o principal ingrediente, que é a forte carga emocional e sinceridade que permeiam a obra deles.

Há que se confiar para mudar e para chegar aos seus objetivos.