Terça-feira, Junho 10, 2008

Overheard in New York

Um dos sites listados nos meus favoritos aí ao lado (www.overheardinnewyork.com) trata de postar conversas de terceiros ouvidas na Big Apple. Às vezes a sutileza do humor está associada ao entendimento da língua inglesa (sem falar nos ótimos títulos), mas vale muito a pena dar uma sacada. Em "Favorite Quotes - Classic Quotes" podemos achar verdadeiras pérolas, dentre as quais transcrevi esta:

Sadly, This Isn't Fiction Either

Woman: Do you have a non-fiction section?
Book guy: Well, everything that's not fiction is non-fiction. [Over] there's cooking, and there's history.
Woman: No, that's not what I asked. Do you have a section for non-fiction?
Book guy: Well, there are no non-fiction novels. Everything here that's not a novel is non-fiction.
Woman: But you don't have a non-fiction section?
Book guy: No. Everything that isn't fiction is non-fiction.

--Barnes & Noble, Staten IslandOverheard by: Dr. Ballon

Sexta-feira, Junho 06, 2008

"Boa Noite"


Não dormia havia pelo menos vinte horas. Recostou-se no duro banco do aeroporto e respirou profundamente, concentrando-se para permanecer acordado. Ainda tinha uma longa viagem pela frente, mas o seu vôo só sairia no começo da manhã e passaria a madrugada esperando no mais impessoal e frio dos ambientes. Carregava consigo um bom livro, mas cuja leitura era tão densa que não era capaz de manter o foco na história contada por mais de dois parágrafos. Nos telões de plasma que exibiam programas repetidos de canais por assinatura o seu olhar descansou por um tempo. Passava uma reprise do jogo do seu time de futebol, cujo resultado desconhecia e, portanto, assistiu como se ao vivo fosse. As pessoas mais estranhas rondavam o grande salão. No seu estado semi-acordado pareciam mais sombras a vagar sem no chão os pés tocar. Um som, de origem desconhecida enchia o espaço a sua volta, com uma batida contagiante, e guitarras destorcidas vindas das profundezas. Resolveu andar um pouco a fim de espantar o sono e os pensamentos obscuros. Uma lânguida figura, toda de preto, descia as escadas rolantes em sua direção. Um calafrio tomou conta de suas mãos suadas. “Boa noite”, disse o andrógino companheiro de solidão. Seu rosto cadavérico, iluminado pela fraca luz que pendia do alto pé-direito, lembrava um doente terminal de câncer. Assustado, esbarrou em um cesto de lixo, espalhando o seu conteúdo no piso de granito. Após rapidamente retornar o cesto à sua posição original, se virou e não mais pôde ver a pessoa que acabara de passar. Olhou para o andar de cima, para as lojas de portas fechadas, para a porta de saída que dava para a gélida noite da cidade grande, e nada se mexia, nenhuma viva alma parecia habitar o aeroporto.

Abatido, voltou a sentar. A luta contra o sono era agora mais intensa, e a cada pequena rendição o vulto negro parecia passar correndo, virando em um corredor próximo. O medo que sentia era algo que ele nunca havia sentido antes. Estava a ponto de ter um ataque de nervos, tamanha era a tensão. “Onde estão as outras pessoas?”, pensava. Com o olhar fixo à frente, dizia para si mesmo que nada daquilo era real, que provavelmente já se encontrava voando para casa e tudo não passava de um pesadelo. Ele poderia simplesmente sair correndo para a cidade lá fora, mas recebera ordens expressas de não se aventurar naquela cidade que nada guardava de santa. Além disso, a chuva que caía pesadamente abafava qualquer som que porventura estivesse sendo produzido no exterior do prédio. Lembrou-se do celular e resolveu ligar para quem quer que fosse, precisava conversar com alguém antes que sua cabeça explodisse. Ao tentar digitar o número, o reflexo no visor mostrava um movimento bem atrás de si. Sentiu a aproximação de uma mão fina, com unhas parecidas com garras, e foi se sentindo tão só quanto alguém poderia se sentir. O último ser humano em todo o planeta.