Mateus era uma pessoa de bem. Afinal de contas, desejava bom dia até mesmo a estranhos, pagava suas contas em dia e nunca tivera problemas com vizinhos. Isso o credenciava, ao menos em sua mente, a um pedacinho no condomínio fechado do céu, a poucas quadras do síndico Jesus, quando deixasse o inferno da Terra. Acontece que, no íntimo de sua cabeça grande, habitava um pequeno monstrinho da inquietação. Algo que em termos físicos e psicológicos poderia ser descrito como um bicho verde gosmento, composto de substâncias não identificadas, altamente inoportuno. Um tipo chato mesmo. Eis que quase todo dia o tal ser ignóbil bate sem avisar na porta da consciência de Mateus, fazendo-o refletir, quando tudo que ele queria era passar inconsciente pela vida, num trem subterrâneo veloz e imperceptível.
Se a vida lhe sorriu com seus brancos dentes e bom hálito, se seu berço era de ouro puro ornamentado com diamantes, que culpa tinha ele? A resposta é nenhuma e toda a culpa do mundo. Só depende de que lado do muro você está. A necessidade real e imediata pode embotar os sentidos de tal forma que o agir errado nada guarda de diferença do agir certo. Bom senso com a barriga vazia é o mesmo que tentar vender um aquecedor em Mossoró (cidade de características infernais no Rio Grande do Norte). Portanto, quando Mateus viu uma mulher sem as duas pernas, deslizando sofregamente sob o semáforo em uma cadeira de rodas, no sol do meio-dia, sendo ignorada por todos os seus pares motorizados, inclusive por ele, sentiu que talvez o porteiro tivesse motivos para barrá-lo no seu até então garantido pós-vida.
Não. Ele não era uma pessoa de bem. Ele era egoísta, mas egoísta de um modo socialmente aceitável. O pior modo que existe na verdade. Carta branca para agir com insensibilidade, afinal vivemos em um mundo perigoso. Assistencialismo exacerbado. Tem que ensinar a pescar, não dar. Não se tratava de achar uma solução para a miséria mundial, ou se candidatar a presidente e com um apontar de sua mão bondosa dar comida a quem tem fome. Tratava-se da grande oportunidade de fazer a coisa certa naquele momento específico. Um momento que se repete na vida de todos os Mateus, dia após dia, sem o devido desfecho. Momentos que viram textos ou músicas, para funcionarem como anestésicos da consciência daqueles que levam uma vida confortável.

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