Uma experiência única. Completamente alheio ao tempo, às pessoas que caminhavam apressadas e à ansiedade que o consumia desde sempre, deixou-se cair no mais absorto estado de contemplação do mundo. Ele nunca foi um personagem efetivo das crônicas que tomavam lugar na cidade em que morava, no seu país, no seu planeta. Ele era um expectador. Observava tudo e todos, minuciosamente, como que estudando a espécie humana e sua passagem efêmera pelos fiapos da roupa de Deus. Um tipo de traça que teima em se fazer notar, e cujo excesso de orgulho só o faz mais insignificante. Poderia um homem estar isento de emoções as mais diversas? O que o diferenciava então do amontoado de matéria inorgânica que o circundava?
Era tudo ao mesmo tempo. Uma ambigüidade ambulante. De uma inconstância irritante. Indeciso. Tonto, escreveu:
“Eu posso escrever o mais impressionante conjunto de palavras, cuja mensagem reverberaria por séculos na história da humanidade, erguendo meu nome – mero simulacro da minha pessoa – às nuvens em que se encontram personalidades que o mundo não esquece. Eu posso idealizar e construir as mais belas obras que se pode conceber, alterar o desenvolvimento humano, levando-o à estratosfera da noite para o dia, surpreender a todos com belas palavras proferidas do alto de um palco, traduzir em notas e acordes os mais sublimes sentimentos. Eu tudo posso. Nós todos podemos. É um poder infinito que emana da força de vontade. Uma simples questão de planejamento. Quero ser o melhor arremessador de dardos do mundo.”
Ao terminar, amassou o papel e o jogou bem longe, como queria ter feito com o dardo, com o íntimo desejo de ser lido por alguém ao acaso. Suas palavras encontrariam eco na mente de outro ser, tão cheio de dúvidas e tão perturbado quanto ele. Do jeito que somos todos, mas que uns conseguem disfarçar melhor. Ele continuava ali, no anti-lugar, sentindo o nada, absorvendo tudo, uma esponja, por cujos poros passa a vida e nada consegue reter.

0 comentários:
Postar um comentário