
Uma forte luz o despertou, com um incômodo que logo se transformou em aguda dor, trazido à tona pelo despertar de sua consciência. Seu corpo todo gemia e sua lombar parecia esmagada por um enorme peso. Ao olhar para cima, apenas o brilho intenso de uma lâmpada quente o cegava. De repente, uma sombra se aproxima, acompanhada da fumaça de um cigarro e uma tosse rouca. Onde estaria, uma vez que não lembrava sequer do que havia se passado após sair de casa pela manhã?
- Você deve estar imaginando como veio parar aqui, não é?
Um verdadeiro mágico, acertar o pensamento alheio desse jeito. Acontece que ser rude naquele momento não parecia ser uma boa opção. Ele tinha suas mãos amarradas e o líquido espesso que se acumulava em sua sobrancelha direita parecia ser seu próprio sangue. Tinha pavor a sangue. A simples idéia de se cortar o alucinava. Violência então, enquanto estilizada nos filmes tudo bem, mas na vida real, aquilo não tinha a menor graça.
- O que eu te fiz? Quem é você?
A silhueta se aproximou de seu rosto, até que pudesse vê-lo em detalhes. Um rosto desconhecido, com olheiras bem marcadas e a pele esburacada o fitou demoradamente. Era um homem de idade indefinida, qualquer coisa entre 30 e 50 anos. Ao chegar bem perto, abriu um leve sorriso, de dentes amarelados e bafo de canela. Afastou-se lentamente, deixando entrever por dentro de sua casaca um objeto metálico preso à cintura.
O seqüestro era algo pelo qual ele realmente não acreditava ter que um dia passar. Homem de poucas posses, tinha na arte de pintar a sua subsistência. Bens materiais? Esquece. Vingança? Fora uma briga no colégio, há mais de 20 anos, não podia recordar ter despertado a ira de um ser vivo sequer. Estaria ele nas mãos de um psicopata?
- Você não se recorda de onde estava no sábado à noite?
Noites de sábado não eram o seu forte. Enquanto a cidade fervia, ele afundava a cabeça no sofá e assistia filmes até acordar, camisa ensopada de suor, no meio da noite para se arrastar até a cama. Uma verdadeira abominação da sociedade.
Sua mente percorreu as últimas lembranças e ele respondeu:
- Estava em casa, dormindo.
- Lembra de ter ouvido algum barulho, algo estranho que tenha acontecido próximo?
Uma enorme vontade de vomitar atingiu-lhe o estômago, mas sua barriga estava vazia demais para expelir qualquer coisa. Naquele último sábado, ainda acordado por volta de uma da manhã, ouviu um estalo de vidro quebrando, quatro andares abaixo de sua janela. Por entre as persianas pôde ver um homem alto, de jaqueta escura, que roubava o carro de um vizinho. Não satisfeito com a primeira tentativa, o assaltante começou a forçar a fechadura de um segundo veículo. Olhava nervosamente para todos os lados, certificando-se de que estava sozinho. O sujeito, logo ao entrar no carro, abriu o vidro e olhou para cima, dando de cara com alguém que o observava através de uma janela de vidro escuro. Uma sirene tocou próximo da rua em que estava. O homem voltou a olhar para cima, para a janela cuja luz de repente se apagou, contando os andares, antes de sair correndo para se esconder na escuridão.
Apesar de artista, um péssimo ator:
- Não, não me lembro de nada parecido.
- Sabe? Se você tivesse dito a verdade eu o teria poupado.
- Mas o que é a verdade?
Havia cruzado uma fronteira estranha. Senso de humor nenhum brotaria daquela sessão de hostilidade.
- A verdade é tudo aquilo que não nos cabe saber.
Não esperava por essa resposta. Não esperava que houvesse uma resposta, pelo menos do tipo verbal. Havia estabelecido uma comunicação. Sem nada a perder, resolveu ganhar tempo:
- O que é Deus para você?
- Deus não existe. Não há nada além de nós aqui, nada além dos microorganismos.
Afinal, que tipo de ladrão de carro era esse? Será que é assim que acabam ganhando a vida aqueles que cursavam filosofia ou teologia?
- Você sabia que Ele existe e não existe ao mesmo tempo? É tudo uma questão relativa...
O soco desferido acertou em cheio seu maxilar, fazendo sua cabeça pender para trás. Toda a evolução e civilidade humana, conquistadas duramente nos últimos milhares de anos, escorriam pelo ralo do universo. Uma dor de cabeça embotou seus sentidos, que no melhor estilo boxeador à beira de um nocaute, procuravam achar o estado de alerta.
- Você está tentando me enrolar, ganhar alguns minutos a mais de vida?
Aparentemente ele tinha um letreiro em sua testa, onde seus pensamentos eram anunciados.
- Olha, estava tentando ter uma conversa sincera. Não quis enrolar nada...
- O que você quis dizer com a relatividade da existência de deus?
- Eu quis dizer que, algumas pessoas depositam tanta fé Nele que, para elas, Ele é tão real quanto o pão que a gente come de manhã. Já para outras, que negam sua existência, que procuram se convencer de que tudo não passa de uma ficção para confortar a nossa existência, Ele realmente não existe. São duas realidades distintas, convivendo em um mesmo domínio.
- Pois então eu vivo na segunda realidade. Acho que sempre vivi e sempre viverei.
- Há pessoas que mudam de realidade.
- Como?
- Normalmente uma experiência de vida que as torna diferentes, mais susceptíveis à fé.
- Por exemplo?
- Antes de dizer o exemplo em que pensei, queria pedir que não me batesse pelo que vou dizer.
- Garanto que não será pelo que você disser agora, mas pelo que me fez sábado.
- Ok, primeiro queria dizer que não chamei a polícia naquele dia. Não vou mentir e dizer que torci por você. Não. Eu não liguei para a polícia porque alguém ligou primeiro. Mas estou sendo punido por algo que não fiz. Segundo, mesmo que eu tivesse lhe feito algum mal incorrigível, o seu perdão lhe traria uma paz infinita, muito melhor que a sua vingança.
- Você está dizendo que eu posso vir a acreditar em deus?
- Sim, a qualquer momento meu amigo, você pode se juntar a Ele. Porque Ele tudo perdoa. Um ato nobre de sua parte pode mudar tudo...
- Sendo assim, um dia, perdoarei.
O barulho de um tiro transpassou a sala, ecoando por instantes, até cessar, formando um silêncio de minutos pensativos, quebrado posteriormente por passos pesados que se afastaram até a porta e ganharam a rua.

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