Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

A grande oportunidade

Mateus era uma pessoa de bem. Afinal de contas, desejava bom dia até mesmo a estranhos, pagava suas contas em dia e nunca tivera problemas com vizinhos. Isso o credenciava, ao menos em sua mente, a um pedacinho no condomínio fechado do céu, a poucas quadras do síndico Jesus, quando deixasse o inferno da Terra. Acontece que, no íntimo de sua cabeça grande, habitava um pequeno monstrinho da inquietação. Algo que em termos físicos e psicológicos poderia ser descrito como um bicho verde gosmento, composto de substâncias não identificadas, altamente inoportuno. Um tipo chato mesmo. Eis que quase todo dia o tal ser ignóbil bate sem avisar na porta da consciência de Mateus, fazendo-o refletir, quando tudo que ele queria era passar inconsciente pela vida, num trem subterrâneo veloz e imperceptível.

Se a vida lhe sorriu com seus brancos dentes e bom hálito, se seu berço era de ouro puro ornamentado com diamantes, que culpa tinha ele? A resposta é nenhuma e toda a culpa do mundo. Só depende de que lado do muro você está. A necessidade real e imediata pode embotar os sentidos de tal forma que o agir errado nada guarda de diferença do agir certo. Bom senso com a barriga vazia é o mesmo que tentar vender um aquecedor em Mossoró (cidade de características infernais no Rio Grande do Norte). Portanto, quando Mateus viu uma mulher sem as duas pernas, deslizando sofregamente sob o semáforo em uma cadeira de rodas, no sol do meio-dia, sendo ignorada por todos os seus pares motorizados, inclusive por ele, sentiu que talvez o porteiro tivesse motivos para barrá-lo no seu até então garantido pós-vida.
Não. Ele não era uma pessoa de bem. Ele era egoísta, mas egoísta de um modo socialmente aceitável. O pior modo que existe na verdade. Carta branca para agir com insensibilidade, afinal vivemos em um mundo perigoso. Assistencialismo exacerbado. Tem que ensinar a pescar, não dar. Não se tratava de achar uma solução para a miséria mundial, ou se candidatar a presidente e com um apontar de sua mão bondosa dar comida a quem tem fome. Tratava-se da grande oportunidade de fazer a coisa certa naquele momento específico. Um momento que se repete na vida de todos os Mateus, dia após dia, sem o devido desfecho. Momentos que viram textos ou músicas, para funcionarem como anestésicos da consciência daqueles que levam uma vida confortável.

Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Inorgânico

Uma experiência única. Completamente alheio ao tempo, às pessoas que caminhavam apressadas e à ansiedade que o consumia desde sempre, deixou-se cair no mais absorto estado de contemplação do mundo. Ele nunca foi um personagem efetivo das crônicas que tomavam lugar na cidade em que morava, no seu país, no seu planeta. Ele era um expectador. Observava tudo e todos, minuciosamente, como que estudando a espécie humana e sua passagem efêmera pelos fiapos da roupa de Deus. Um tipo de traça que teima em se fazer notar, e cujo excesso de orgulho só o faz mais insignificante. Poderia um homem estar isento de emoções as mais diversas? O que o diferenciava então do amontoado de matéria inorgânica que o circundava?

Era tudo ao mesmo tempo. Uma ambigüidade ambulante. De uma inconstância irritante. Indeciso. Tonto, escreveu:

“Eu posso escrever o mais impressionante conjunto de palavras, cuja mensagem reverberaria por séculos na história da humanidade, erguendo meu nome – mero simulacro da minha pessoa – às nuvens em que se encontram personalidades que o mundo não esquece. Eu posso idealizar e construir as mais belas obras que se pode conceber, alterar o desenvolvimento humano, levando-o à estratosfera da noite para o dia, surpreender a todos com belas palavras proferidas do alto de um palco, traduzir em notas e acordes os mais sublimes sentimentos. Eu tudo posso. Nós todos podemos. É um poder infinito que emana da força de vontade. Uma simples questão de planejamento. Quero ser o melhor arremessador de dardos do mundo.”
Ao terminar, amassou o papel e o jogou bem longe, como queria ter feito com o dardo, com o íntimo desejo de ser lido por alguém ao acaso. Suas palavras encontrariam eco na mente de outro ser, tão cheio de dúvidas e tão perturbado quanto ele. Do jeito que somos todos, mas que uns conseguem disfarçar melhor. Ele continuava ali, no anti-lugar, sentindo o nada, absorvendo tudo, uma esponja, por cujos poros passa a vida e nada consegue reter.