Quarta-feira, Junho 24, 2009

A curva da vida / Reflexões de esteira


Na engenharia tudo se resume a equacionar os problemas e transformar os dados em gráficos. Nem sempre isso é possível, mas quando não resolvemos o problema de forma analítica, apelamos para ensaios exaustivos que hão de nos fornecer uma lógica para determinado fenômeno físico. Aí é só fazer a correspondência de “x” com “y” e um abraço.

Na vida, nascemos, crescemos, procriamos (atualmente essa parte não é mais obrigatória, pelo menos para os não-mórmons) e morremos. Começamos pequeninos e indefesos, nos desenvolvemos, criando músculos e melhorando os nossos recordes pessoais, e... e então atinge-se o ponto de inflexão da curva. É muito difícil identificar esse ponto de máximo, quando a derivada da função se iguala a zero, e aquela curva quadrática, barrigudinha que é uma beleza, aponta pro céu e começa a descer. Talvez por isso o formato dela se assemelhe ao inverso daqueles sorrisos de “smileys”, com a concavidade para baixo ou, como diria um antigo professor meu, com o “jeitão” dela para baixo.

Se aos dezessete você pensa que, se começar a treinar no dia seguinte, você será capaz de correr uma maratona sem maiores problemas em aproximadamente um ano, você provavelmente está certo. A tendência é sempre melhorar, quanto mais exercício melhor. Mas quando aos vinte e nove e pensa em aumentar a sua velocidade na esteira em um quilômetro a mais por hora, prepare-se para sofrer meu amigo. A esteira não perdoa, porque ela não pára. A não ser que você aperte o botão vermelho da vergonha. Existe ainda, nos novos modelos de esteiras, um item extra para torturar os seus desafiantes, que é a inclinação. Quatro por cento é o suficiente para sentir o bafo do diabo a te cutucar com o tridente.

Dia desses fiz as contas de quanto tinha que aumentar minha velocidade para baixar em um minuto o meu tempo de corrida por quilômetro. Fica aqui a dica, não façam isso em casa. Pelo menos não de uma só vez. Ao implementar o meu sonhado novo patamar de velocidade na máquina, não se passaram sequer trinta segundos para o joelho apitar. Eu estava lá, no ponto de inflexão da minha curva da vida pessoal. Senti como se estivesse subindo numa montanha russa e pudesse ver, lá de cima, o parque inteiro. Um momento de reflexão da vida, que serve para nos lembrar que não estamos aqui para sempre e que todo segundo é valioso.

Sexta-feira, Junho 19, 2009

Overheard in Brasília II

"O vermelho poderia não ser tinta no seu cabelo"

cara atento: olha o carro, cuidado!
ruiva lenta saltando de lado: ui!
cara atento: você podia ter sido atropelada, era uma Hilux.
ruiva lenta: pelo menos era um carrão.

overheard by "voltando pro trabalho"

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Mellon Collie and the Infinite Sadness

Ao explicar ao diretor de arte do CD "Mellon Collie and the Infinite Sadness, a bíblia do rock alternativo dos anos 90, o que ele queria para o encarte, Billy Corgan definiu o álbum como um "rock psicodélico tocado por uma banda de heavy metal dos anos 1920". Quer resumo mais adequado para as músicas do MCIS?
Do lirismo transcendental ao rock pesado quase bestial, o CD duplo de 1995 até hoje está entre os meus favoritos.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Matemática financeira

As obras de engenharia são lugares interessantes, que guardam histórias mis, mas poucas vezes contadas. Suponhamos que isso se deve ao pequeno teor de humanismo vigente no meio, traduzido em um pragmatismo matemático e na parca instrução do contingente laboral. Mas ao mesmo tempo, desse antro por vezes demasiado masculino, brotam bonitos laços de amizade e lições.

Na construção de um edifício, a empresa responsável, que buscava aperfeiçoar o seu sistema de qualidade e concomitantemente valorizar seus funcionários, decidiu implementar aulas de português e matemática para os interessados. Um jovem engenheiro foi designado para apresentar a rainha das ciências e senhora dos números àqueles cansados mas persistentes trabalhadores, que se dispunham a ficar uma hora além do horário normal. Logo nos primeiros encontros ficou claro o quanto aquelas aulas, que além das contas básicas e um pouco de geometria traziam pinceladas de atualidades e curiosidades, despertavam o genuíno interesse dos que poucas vezes haviam tido a oportunidade de aprender. Para o jovem engenheiro, todo aquele papo eleitoral que permeia a mídia de quatro em quatro anos, acerca do quão importante é levar educação ao povo começou a fazer mais sentido, e também aumentou a sua revolta ao sentir o quanto isso estava longe de acontecer.

O aluno mais assíduo e também o menos favorecido pelo nosso sistema educacional era um magro ajudante, de olhos grandes e pai de quatro filhos. V. prestava atenção a todos os detalhes, mas durante algumas aulas seu avião mental planava longe das somas de frutíferas que preenchiam as lições.

- Você tem duas laranjas V. Você vai ao mercado e compra mais três laranjas. Quantas você tem agora?

Silêncio.

A matemática básica adora laranjas. Acredito que quase todos aprendem o conceito de frações imaginando uma laranjada. No entanto, no mundo da obra isso não funciona do mesmo jeito. Cada ser com suas idiossincrasias.

- Duas laranjas, depois que você compra outras três...quantas são agora?

Um grilo assovia ao longe. A classe se desespera e tenta intervir. O jovem engenheiro pede calma. Há de brotar, pois ele está jogando as sementes. Teimoso:

- Ok, imagine que essas britas são laranjas. Aqui estão duas. Se você comprar mais três – e coloca-as na mesa – quantas você tem? – sorri triunfante.

Clima constrangedor. Uma alma caridosa no fundo da sala se aproxima e sussurra algo ao surrado professor mergulhado no surrealismo fantástico.

- Ok, vamos tentar. V., você tem dois reais e recebe mais três. Quantos você tem agora?

- Cinco – diz V. sem pestanejar.

- Se você agora recebe mais dez reais?

- Fico com quinze – manda outra otário.

- E se comprar um lanche de três reais?

- Sobram doze – sorriso aberto.

Pronto, missão cumprida, ou comprida, como queira. Isso sim é que era matemática financeira.