Quarta-feira, Setembro 28, 2011

1999 - Um ano de cinema

1999 foi um ano profícuo em relação a bons filmes. Vocês já pararam para pensar em quantos filmes interessantes foram lançados neste ano de 2011? Eu me lembro de uns dois ou três no máximo. Todos bem aquém de espetacular. Filmes que não durarão muito tempo na memória. Porém, em 1999 tivemos Sexto Sentido, Clube da Luta, Matrix, Beleza Americana e De Olhos Bem Fechados. Isso baseado só na minha lembrança, sem fazer qualquer pesquisa extra, e sem sair do mainstream cinematográfico. Há quem cite ainda Magnólia, elogiado pela crítica, mas que não me convenceu. Ou Bruxa de Blair, que se não é um grande filme, pelo menos inovou no marketing de lançamento e arrancou leite de pedra em termos de rentabilidade.

Sexto Sentido foi um marco. A esperança do aparecimento de um novo grande diretor, que tiraria do marasmo a indústria manca do cinema. A revelação final do filme e a construção da história para chegar até ali, amarrando todas as pontas, foram fantásticas. Sem falar que criou um daqueles bordões que ficam ressoando por anos: “I see dead people” (com voz sussurante). Eu e minha irmã até hoje gostamos de encenar a seqüência em que o garoto e sua mãe estão dentro do carro, em um engarrafamento. O garoto diz que sua avó, já morta, havia dito que a resposta para a pergunta constantemente feita pela mãe, no seu íntimo, era “sim”. O menino emenda: “What was the question, mama?” Mãe com voz chorosa, soluçante: “If I ever made her proud.” Aplausos, entremeados por lágrimas. O lance com a cor vermelha, presente em algum objeto sempre que há aparições do além, também criou um efeito interessante. Principalmente quando assistimos ao filme pela segunda vez.

Clube da Luta chutou o balde do politicamente correto e trouxe a idéia de uma selvageria sadia para o ambiente excessivamente polido e frio da vida urbana moderna. Faz-nos refletir ao mesmo tempo em que diverte. Firmou Edward Norton ainda mais como um dos caras do cinema atual e ajudou Brad Pitt a ser respeitado como ator, em vez de ser apenas objeto de desejo de adolescentes no cio. O humor cáustico do filme escorre pela tela nas cenas em que Norton freqüenta diversos grupos de terapia, com doentes terminais ou a la alcoólatras anônimos.

Sabonetes Tyler Durden, tira até manchas de sangue
Matrix me fez gostar um pouco de ficção científica. Geralmente não me empolgo muito com filmes do tipo Jornada nas Estrelas. Um pouco nerd demais. Mas Matrix dosa os clichês de ficção científica e os impressionantes efeitos especiais, com interessantes questionamentos filosóficos. Tudo na medida certa. A melhor cena é com certeza a da escolha das pílulas. O que é melhor para você? Ser feliz na ignorância, ou conhecer a realidade, dura realidade? Como dizia o revoltado Zack de La Rocha, à frente do Rage Against the Machine (que não por acaso participa da trilha sonora, arrepiando no final do filme) nos anos 90: “If ignorance is bliss, than knock the smile off my face!”

Recentemente comprei o DVD de Beleza Americana, filme para se ver muitas vezes. O personagem de Kevin Spacey virou uma espécie de ídolo meu, quando ele liga o botão de “foda-se” e passa a viver da forma mais direta possível. Outro personagem que marcou foi o militar aposentado, extremamente conservador e que era um déspota na relação com seu filho e com sua esposa. Tudo parece fazer sentido quando percebemos que a sua tirania era fruto de um homossexualismo eternamente reprimido. Sempre que passo em frente ao trabalho de Marie vejo subir pelos ares bolas de pêlo e pedaços de plástico, capturados por um redemoinho de vento provavelmente formado pela disposição dos prédios no entorno. Imediatamente me vem à mente a cena que, apesar de beirar o nonsense, é das mais bonitas do filme. O filho do militar e sua namorada, filha de Kevin Spacey, assistem embasbacados a um dos muitos vídeos feitos pelo rapaz, quase psicótico: um saco plástico que “dançava” ao sabor do vento, por longos minutos.

A dança do saco plástico em Beleza Americana - poesia nonsense
De Olhos Bem Fechados é um filme que pode provocar reações díspares. Foi filmado com paciência, num ritmo próprio para degustar imagens e sensações. Bem distante do esquema filme-videoclipe, com 400 quadros por segundo e enredos comprimidos em 2 horas, tão em voga hoje em dia. Foi também o último filme de Stanley Kubrick, antes de ele bater as botas. O personagem vivido por Tom Cruise consegue uma senha com um pianista conhecido para participar de uma reunião secreta. O pianista contou que era levado sempre vendado, onde tocava por horas em uma espécie de festa sem ver as pessoas que dela participavam. Uma vez ele tivera a chance de espiar e viu inúmeros mascarados participando de orgias e bebedeiras. Em crise com sua esposa, ironicamente sua futura ex-esposa na vida real (Nicole Kidman), o personagem de Tom Cruise dá uma de penetra na festa e é literalmente desmascarado.

Masquerade!
Vez por outra um filme ousa destoar da velha fórmula hollywoodiana caça-níquel. Quando isso acontece, eu que estava quase sem esperanças em relação a essa nobre arte, volto a me empolgar com o cinema. Passo então a esperar pacientemente pela nova surpresa.

1 comentários:

Flávio disse...

Realmente são muitos bons filmes para um ano só! Assisti Bruxa de Blair no cinema, e sim foi assustador e diferente de qualquer coisa que eu já tinha visto antes!