Quarta-feira, Setembro 21, 2011

Amor à segunda vista

Sábado, dia 17 de setembro, foi o aniversário de Marie. Assim, resolvemos comemorar em Alto Paraíso, local que havíamos visitado e apreciado em julho desse ano (ver post). Saímos de seis horas da manhã e após duas horas e quinze minutos (210km) estávamos entrando na cidade. É engraçado como uma vez feito o reconhecimento de um caminho, ele parece menor da segunda ou enésima vez que o percorremos.

Resolvemos testar uma nova pousada, que acabou se revelando uma grata surpresa. A Pousada Recanto da Grande Paz fica próxima à rua principal de Alto Paraíso e, apesar do nome pomposo, é aconchegante e cobra um preço razoável. Um achado.

Como da primeira vez em que estivemos na região, decidimos fazer uma programação mais “hard” no sábado, e outra mais “light” no domingo, antes de voltarmos para Brasília. Dessa vez estávamos sozinhos e decidimos não contratar um guia. Após rápida coleta de informações rumamos em direção às Cataratas dos Couros. Deve-se pegar a direção de Brasília na BR-010, por 18km, até encontrar a placa que indica a entrada.

Uma vez na estrada de barro que nos levaria às Cataratas dos Couros nos demos conta de que não havíamos perguntado quantos quilômetros teríamos pela frente. Somente após 10km comendo poeira vimos uma placa que confirmava o sentido das cataratas. Foi então que Marie lembrou ter visto o número 35 em algum lugar do banner que as pousadas têm com informações das principais atrações da região. 35km? Era muito chão... Quando completamos 20km vimos outra placa de confirmação. No geral basta seguir a estrada de barro no seu traçado principal, ignorando pequenas entradas ou desvios claramente secundários. Mas lá pelo 26º quilômetro uma bifurcação nos deu um nó no cérebro. Pegamos para a esquerda, seguindo uma leve marca de pneus. Logo depois uma nova bifurcação nos fez desconfiar. Voltamos para a primeira e pegamos o caminho da direita. 5km depois empacamos em uma pequena casa no meio do nada, onde um senhor, claramente acostumado às visitas inesperadas de viajantes perdidos nos contou que a primeira escolha, feita sem titubear, é sempre a certa. Enquanto voltávamos passamos por um carro com três garotas, que lembravam aquele grupo de dublês femininas do filme do Tarantino – À prova de morte –, ou ainda uma versão mais gordinha das Panteras. Elas estavam a ponto de azucrinar o senhor da casa do fim da linha quando nós as informamos que bastava nos seguir. Após pegar a opção da esquerda, deve-se pegar a esquerda de novo na segunda bifurcação e, 31km após ter saído do asfalto e após cruzar seis pontes duvidosas de madeira, ser feliz.

Ali estacionamos o Black Thunder (nosso valente Gol preto 1.0) e seguimos a pé. As Panteras eram paulistas ratas de trilhas e seguiram próximas a nós. No caminho havia muitos sinais das recentes queimadas que assolam o centro-oeste, mas surpreendentemente a vegetação do cerrado se recupera rapidamente e belas flores amarelas já brotavam em meio às cinzas. Logo chegamos ao rio que desemboca na primeira queda d’água conhecida como Muralha. O lugar é muito bonito e refrescante, com a brisa úmida massageando nossos rostos suados. Passamos um bom tempo por lá antes de continuar na trilha. Outros grupos pequenos seguiam adiante. Dois casais com um guia, dois garotos locais e um cachorro, as Panteras e um ou outro caminhante.

Belas flores surgindo em meio às cinzas

Cachoeira da Muralha
Eu e Marie fomos em frente até encontrar uma segunda e enorme queda d’água, cheia de recortes na pedra cujos altos degraus desciam em direção a um profundo e misterioso cânion. Sentamos sob uma pequena árvore e descansamos enquanto comíamos parte dos nossos kits-lanche comprados na pousada, que consistiam de um pão com queijo, um suco em caixa, um salgadinho de gengibre, uma banana, um doce de banana-passa e uma água. Nesse ínterim, estranhamente, ninguém passou por nós.

Segunda queda d'água no início do cânion
Estudamos atentamente o melhor caminho para a descida. Alguns dos altos degraus pareciam não permitir uma volta tão fácil quanto a descida. Descemos dois degraus altos, nos pendurando em pedras pontiagudas. Acho que nunca tive que usar tanto as mãos em uma trilha. Ninguém à vista. Ponderamos melhor. Não sei explicar a sensação, mas nosso corpo parece sentir que está cruzando uma linha imaginária, que demarca o limite entre o perigo e o que é seguro. Por mais que tenha lido, visto ou ouvido relatos de aventura, de pessoas colocadas em situações extremas – como no filme 127 Horas, no livro Tocando o Vazio (Joe Simpson) ou no livro No Ar Rarefeito (Jon Krakauer) – parece ser preciso passar por algo semelhante para compreender se somos capazes ou não de enxergar aquela linha. Não deixar os sentimentos embotarem os sentidos e o bom senso é um senhor exercício de autocontrole.

No alto do cânion, vimos os garotos e o cachorro. Havia, portanto, um caminho alternativo antes de chegar à descida em que nos encontrávamos. Voltamos a subir os degraus e encontramos as Panteras, que também buscavam pela trilha. Após algumas idas e vindas encontramos a parte da trilha que subia lateralmente ao cânion, mais pedregulhosa do que arenosa, com nível crescente de dificuldade. Continuei tendo que, vez por outra, usar as mãos para me apoiar em pedras antes de descer. Eu e Marie pegamos um desvio à direita que nos levou ao platô intermediário do grande cânion. Lá os dois casais que havíamos visto no início da trilha tomavam banho numa piscina rasinha enquanto o guia se refestelava à sombra. Abaixo dali, os garotos e o cachorro saltavam em um poço de águas límpidas. O lugar era fantástico, com a natureza se exibindo em frente aos nossos olhos estupefatos. Foi fácil sentir nossa pequenez naquela fenda, que poderia, quando bem quisesse, nos engolir para todo o sempre.

Vista a partir do platô, olhando cânion abaixo

Vista a partir do platô, olhando cânion acima (na direção da segunda queda d'água)
Saímos de lá com a alma lavada. E o corpo quebrado. Aparentemente ainda havia como descer mais ao longo do cânion, com vistas para outras quedas d’água. Como estávamos sem guia e perdemos muito tempo descobrindo por conta própria o caminho das pedras (literalmente), acabamos por perder essa oportunidade. Na volta pela agora já conhecida trilha, ainda nos perdemos na parte mais fácil, já próximo à Muralha. Acabamos cortando caminho por uma mata recém saída de uma queimada, que nos cortou as canelas e nos encheu de riscos de carvão. Já dentro do Black Thunder, marcamos os principais pontos de referência da estrada de barro, associados às distâncias em quilômetros para não nos perdermos em uma próxima oportunidade.

De volta à cidade de Alto Paraíso, o desejo de comer um açaí revigorante nos levou a uma lanchonete próxima à rodoviária, chamada Balcão 3. Foi o melhor açaí que tomei nos últimos tempos. A fome era medonha, portanto qualquer açaí seria o melhor dos últimos tempos. À noite resolvemos repetir a dose da última vez que estivemos em Alto Paraíso e fomos jantar no Jambalaya. O restaurante ficava a uma quadra da nossa pousada. Então, a pé fomos e viemos. Mais um ótimo jantar, mais uma garrafa de vinho. Mais uma longa e interessante conversa com Marie, que me fez lembrar o porquê de nós termos casado. Espero que ela tenha sentido o mesmo, e que o seu aniversário tenha sido tão bom quanto o meu dia de sábado.

No domingo tomamos um café da manhã repleto de frutas, com destaque para uma suculenta melancia. Depois fomos para a Cachoeira dos Cristais. Uma brincadeira de criança, quando comparada às Cataratas dos Couros. Um desafio para as pernas castigadas por cãibras durante a última noite. O lugar todo é muito bonito, com paradas estratégicas no meio da descida que termina na cachoeira principal, com um belo visual. Passamos um bom tempo por lá, respirando o ar úmido que tanto nos faz falta em Brasília e fazendo cruzadinhas, nas quais Marie está ficando viciada. Como fica a apenas 5km da cidade, mais 3km de estrada de barro, e como a trilha é relativamente fácil, dentro de uma propriedade privada (cobram R$8,00), o que garante que a trilha seja bem cuidada, tinha mais gente do que formiga em cima de bolo de chocolate não hermeticamente guardado. Assim, a experiência de comunhão com a natureza ficou um pouco comprometida. Mas quem disse que não é a gente que está estragando a experiência das outras pessoas? Um dos males do turismo é que todos acham que as atrações deveriam estar ali exclusivamente para elas. Com a mente desprendida de um viajante, e não de um turista profissional, é possível curtir o lugar com todas as suas idiossincrasias, mesmo que elas incluam o fato de ser um point turístico do momento.

Eu e Marie na trilha da Cachoeira dos Cristais
Ao meio-dia passamos pela pousada para buscar nossas mochilas e dar adeus àquele belo recanto do aconchego. No caminho decidimos parar para almoçar um tambaqui na brasa, anunciado por uma plaquinha na beira da estrada. O nome do lugar é Casa da Vida, uma pousada-restaurante-casa de eventos distante 9km da BR-010, acessível por mais uma estrada de barro. O Black Thunder já estava se acostumando com o terreno salpicado de pedras, pontes decrépitas de madeira, costelas (aquelas ondulações na areia) e poeira. Essa estrada de barro era a mais idílica de todas que havíamos enfrentado, rasgando estoicamente a paisagem plana e inóspita, exceto por uns cavalos selvagens e algumas siriemas. Perdida no tempo aparece a Casa da Vida, com toques coloridos e um sino na entrada para avisar seus proprietários de nossa chegada.

Black Thunder na estrada para a Casa da Vida
O lugar estava vazio. Apenas o casal de donos, formado por um gaúcho e uma amazonense – ambos jovens, conferia vida à Casa da Vida. Foi um almoço prive, preparado especialmente para nós, como se tivéssemos sido convidados. Enquanto esperávamos jogamos pingue-pongue e sinuca. O dono pediu desculpas pela aparente bagunça na área de jogos e piscina, pois eles haviam recebido um aniversário de criança no dia anterior. O tema da festa era bem apropriado ao local: extraterrestres.

Crianças extraterrestres
O peixe estava ótimo, acompanhado de um belo baião de dois. Um pouco caro, mas também o que esperar de um peixe vindo direto da região amazônica graças à mãe logística?

Chegamos a Brasília já por volta das seis da tarde, felizes por mais uma viagem bem sucedida e pelas experiências adquiridas. Um verdadeiro amor à segunda vista.

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