Apesar das futuras viagens ocuparem a maior parte dos meus pensamentos, as antigas perambulações também passeiam pela mente desse viajante esporádico, ainda que em meio às névoas do esquecimento parcial. Em 2004 eu estava morando em São Carlos, no interior de São Paulo, tentando desvendar os mistérios do maravilhoso mundo do concreto armado, quando recebi a visita de minha então namorada Marie durante um fim de semana. Resolvemos fazer uma curta viagem a Brotas, cidade conhecida por suas trilhas, cachoeiras e esportes de aventura. E por ser a cidade natal de Daniel – o cantor sertanejo.
Após nos informarmos dos horários de ônibus fomos até a USP retirar dinheiro em um caixa eletrônico. Ambos vivíamos à base de bolsas de estudo e todo centavo era crucial. Após sentarmos no banco da praça para rever o roteiro, partimos em direção à rodoviária sem perceber que a carteira havia ficado para trás. Só notamos ao alcançarmos o guichê de vendas das passagens, quando me pus a correr de volta a USP. Nem sinal da carteira. Indaguei várias pessoas que passavam pelo local, até ser informado que um homem a havia levado para o posto de segurança da universidade. Enquanto corria para lá, interpelei um dos seguranças que passava tranquilamente. Ele me mostrou a carteira e perguntou se havia algum dinheiro nela antes. No momento apenas os documentos a preenchiam. Vendo meu desespero frente ao repentino “alisamento” ele perguntou de quanto era o prejuízo. Só quando notou que eu sabia a quantia exata e reconhecendo meu rosto nos documentos ele resolveu me passar a grana. Apesar do teste sádico, saí feliz da vida por poder retomar a viagem. O problema agora era não perder o ônibus.
Todo suado em decorrência do trote alucinado de ida e volta à USP, dei a boa notícia a Marie. Por sua vez ela me contou que o ônibus acabara de partir. O próximo ônibus demoraria em torno de uma hora, mas não iria direto para Brotas. Ele passava por Itirapina, onde deveríamos esperar algumas horas para pegar outro ônibus e poder chegar até Brotas. Diante das circunstâncias antes sombrias, rimos da situação e a aceitamos como um leve sobressalto na estrada da vida, coisas que acontecem.
Pouco depois estávamos dentro de um “cambão”, pior do que muitos ônibus de linha que circulam nas cidades. No meio da tarde estacionamos em Itirapina, onde saltamos juntamente com alguns poucos passageiros que se dispersaram e, em minutos, estávamos completamente sós em uma rodoviária aparentemente abandonada. A sensação era a de que todos os outros seres humanos tinham sido erradicados da Terra. Sentimento de desolação, como naquela cena do filme “Advogado do diabo” em que Keanu Reeves sai correndo de um hospital em plena Nova Iorque, e dá de cara com uma impensável rua vazia. Tudo bem que Itirapina e Nova Iorque diferem em alguns aspectos, mas ainda assim a situação era intrigante.
Na rua adjacente, nenhum carro, ninguém. Apenas o sol inclemente, fritando nossas cabeças. Então fizemos o que havia para ser feito: escolhemos um dos lados e caminhamos. Encontramos a cidade em si, com poucas pessoas olhando por sobre o muro das casas e dois meninos desconfiados riscando o chão com gravetos. Não me surpreenderia se extraterrestres brotassem do solo e pulassem em nossos pescoços, transformando-nos em zumbis.
Finalmente encontramos um modesto hotel, onde havia pessoas conversando e almoço. Passamos a tarde por lá, esperando o horário de partir. No cair da noite estávamos de volta à rodoviária, cujo silêncio só foi quebrado pela chegada do ônibus, que estacionou preguiçosamente em uma das várias vagas vazias. Por volta das nove horas da noite chegamos em Brotas. Não havia táxi nem balcão de informações. Como esperávamos chegar mais cedo, antes de perder o primeiro ônibus em São Carlos, não sabíamos sequer em que hotel/albergue iríamos ficar. Então caminhamos, arrastando uma mala por ruas inóspitas, até encontrar o último quarto vazio da cidade, a um preço mais salgado do que a pizza fria que pedimos mais tarde para acalmar o leão que rugia em nossos estômagos.
No dia seguinte fizemos uma trilha íngreme, localizada em uma fazenda nos arredores da cidade, que desembocava em uma linda e alta cachoeira. Não lembro o nome da trilha, nem da fazenda, nem da cachoeira, mas vale a pena ir lá. De certa forma aquele contato com a natureza trouxe sentido à nossa até então excêntrica viagem de fim de semana.
Ao anoitecer estávamos de volta na malfadada rodoviária de Itirapina. Dessa vez muitas pessoas esperavam o ônibus que nos levaria de volta para São Carlos. Curiosamente, eram todas mulheres, que conversavam animadamente. Após ouvir de maneira desavisada algumas das conversas, que renderiam um ótimo conteúdo para um site nos moldes do “Overheard in New York” (nesse caso “Overheard in Itirapina”), descobrimos que eram todas mulheres de prisioneiros, vindas da penitenciária localizada em Itirapina. E era dia de visita íntima. Entramos no ônibus apertado e seguimos ouvindo histórias escabrosas que permeariam nossos pesadelos vindouros.
O que ficou de mais interessante da viagem foi perceber, anos depois, que as memórias cujas unhas se encontravam mais profundamente fincadas em meus neurônios eram aquelas ligadas ao processo de viajar, e não aquelas ligadas à finalidade da viagem em si. Ou seja, a graça muitas vezes está no caminho, ainda que o ponto de chegada seja o único objetivo inicial.
1 comentários:
"Tudo bem que Itirapina e Nova Iorque diferem em alguns aspectos, mas ainda assim a situação era intrigante." --> hehehe
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