Esse texto resultou da viagem de férias, durante o mês de outubro, em que eu e Marie passamos por Las Vegas, Grand Canyon, Los Angeles, Cambria, Carmel-by-the-sea e San Francisco.
Após exaustivo dia dirigindo pelo Big Sur e pela 17-mile drive, chegamos ao nosso hotel em Carmel-by-the-sea. O “by-the-sea” no nome da cidade é constantemente esquecido quando se fala dela, mas dá um charme especial ao lugar. Carmel é um refúgio dos moradores da próxima San Francisco e de turistas de todo o mundo. Apesar disso, parece manter um clima de cidade pequena, pacata.
Após exaustivo dia dirigindo pelo Big Sur e pela 17-mile drive, chegamos ao nosso hotel em Carmel-by-the-sea. O “by-the-sea” no nome da cidade é constantemente esquecido quando se fala dela, mas dá um charme especial ao lugar. Carmel é um refúgio dos moradores da próxima San Francisco e de turistas de todo o mundo. Apesar disso, parece manter um clima de cidade pequena, pacata.
Já era começo de noite e, cientes de que um banho seguido de um rápido descanso seria o mesmo que nos acorrentar àquele quarto de hotel, resolvemos sair imediatamente para dar uma caminhada pela cidade e jantar. A escuridão se instalou rapidamente e poucas pessoas caminhavam pela Ocean Avenue. Nosso hotel ficava na extremidade mais alta dessa rua, que parecia ser a principal, e bastava deixar as pernas se alternarem mecanicamente ladeira abaixo.
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| Entrada do Dametra Cafe (foto do site deles) |
Paramos em lojinhas e em frente a alguns cafés espiando o cardápio. De repente passamos em frente a um apertado restaurante chamado Dametra Cafe, que estava apinhado de gente que se esbaldava em taças de vinho e risadas. O ambiente parecia quente, com tons amarelados e o burburinho das pessoas. Do lado de fora umas quatro pessoas esperavam uma mesa. Eu e Marie achamos que talvez não valesse a pena esperar e resolvemos descer mais à procura de um lugar para comer. No entanto, por mais que estar de férias faça com que todos os dias pareçam ter o frescor de uma noite de sexta-feira, estávamos numa cidade pequena e era segunda-feira. Poucos lugares se mostravam convidativos. Após curtas descidas e subidas indecisas na íngreme Ocean Avenue, nos vimos gravitacionalmente atraídos ao Dametra Cafe, junto das agora seis pessoas que esperavam de pé, agitando braços e pernas para se manterem aquecidas.
Um homem alto e magro, de nariz adunco e sorriso largo, saiu de dentro do restaurante. Perguntou de onde nós éramos e pareceu gostar do nosso Brasil. Ele era da Jordânia e seu nome era Faisal, o dono do estabelecimento. Disse que tentaria nos arranjar uma mesa e ofereceu taças de vinho para amenizar a espera. Antes que viesse o vinho, chegou a mesa. O restaurante se dividia em dois ambientes: o principal, que conseguíamos ver pela janela que dava para a rua, e o secundário, que se comunicava com o primeiro nos fundos, e onde nos sentamos em uma pequenina mesa. Um baixinho de olhos puxados e movimentos ágeis nos ajudou com o cardápio na escolha dos pratos e de uma garrafa de vinho. Acho que seu nome era Dexter, e ele era das Filipinas. Enquanto esperávamos devorando os pãezinhos da entrada e bebericando o vinho, irrompe uma animada música na sala contígua, acompanhada de palmas e gargalhadas de regozijo.
Dexter se desculpou pela demora dos pratos. Estavam tendo um dia cheio. Eu disse que isso era bom para os negócios, ao que ele respondeu: “É uma pena apenas termos que apertar os cozinheiros. Mas nós daremos conta.”
Eu havia pedido um prato com as palavras tender, lamb e shank, das quais eu compreendia dois terços. Apesar de me virar bem em inglês, meus conhecimentos na parte de alimentos ficam a desejar. Portanto, desenvolvi uma teoria em que, se você conhece e lhe agradam mais de dois terços das palavras que descrevem o prato, pode pedir. O resto faz parte da aventura de estar viajando. Pergunte apenas sobre a pimenta, pois quando é spicy o troço pega fogo mesmo. Marie pediu um gyros – sanduíche grego com finos pedaços de carne de carneiro. Havíamos nos dado bem com um desses em um restaurante grego na Third Street, em Santa Monica, dois dias antes. No Dametra Cafe havia pratos bem diferentes, mas todos baseados na cozinha mediterrânea.
Nossos pratos chegaram exalando um cheiro delicioso. Descobri que shank era a perna do carneiro. Apesar de parecer bem gordurosa a princípio, a carne extremamente macia deslizava pelo osso com o simples toque dos talheres. Aquilo não era culinária de principiantes. Estávamos diante de profissionais. Na metade do caminho para terminar nossos pratos, com o vinho já ativando os sextos e sétimos sentidos, Faisal aparece no meio do nosso salão. Ele vem acompanhado de um estranho instrumento de cordas – uma espécie de banjo árabe – e de um cozinheiro. Ele apresenta o Antônio, que parece sul-americano como nosotros, porém de um dos países de ascendência hispânica. Depois pedem licença para tocar uma canção, que começa triste com o canto lamurioso e bonito de Antônio, num espanhol que bem poderia ser de um mouro da era medieval. A canção cresce até um refrão que instiga todos a bater palmas. Lá estamos nós, fazendo parte da celebração daquela mistura de povos. Uma mistura ideal que tanto se almeja no mundo segregado de hoje e ainda tão utópica.
| Dentro do acolhedor Dametra Cafe |
O Dametra Cafe mantém uma aura de informalidade, com Faisal e Dexter fazendo questão de apertar mãos, dar tapinhas nas costas. Um contato pouco comum naquelas paragens. Quando pedimos a conta, o filipino fez questão de nos trazer uma sobremesa por conta da casa, que estava uma delícia. Tudo isso a preços bem razoáveis.
Quando estávamos para ir embora, eu disse a Faisal:
“Sabe qual o problema do seu restaurante?”
“Qual, qual?” – ele perguntou surpreso.
“É que as pessoas não querem ir embora”
“Very true, very true” – disse ele com o sotaque engraçado.
Saímos de lá felizes com nosso jantar e com nossa descoberta. Cada vez mais conscientes de que em uma viagem, não adianta procurar pelo inusitado, pelo diferente, pelo belo. Ele é que acha você. Mas para isso é preciso estar “lá”, seja lá onde “lá” for.

2 comentários:
Delícia de narrativa 3F! Saludos, pc
Vc está ficando bom nisso! Sua descrição, além da inveja típica da viagem, meu deu uma fome danada!!!!!!!
Abraços,
Paulo.
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