Sábado, Novembro 05, 2011

O circo do sol

Esse texto resultou da viagem de férias, durante o mês de outubro, em que eu e Marie passamos por Las Vegas, Grand Canyon, Los Angeles, Cambria, Carmel-by-the-sea e San Francisco.



O bonito teatro do hotel Treasure Island, onde é apresentado o Mystère, antes de começar a apresentação

Já havia ouvido falar muito do Cirque Du Soleil. Eles já vieram ao Brasil, mas os preços aqui cobrados pareciam querer que os palhaços sentassem nas arquibancadas, em vez de circularem no picadeiro. Mesmo assim, aqueles que assistiam insistiam que valia a pena.

Em Las Vegas, enquanto o rio hedonista flui pelas ruas, cassinos e clubes noturnos, alguns teatros pertencentes aos hotéis apresentam a arte no seu estado mais puro. São pelo menos seis diferentes espetáculos com a marca Cirque Du Soleil, apresentados diariamente na cidade. Tive a oportunidade de assistir dois deles: o Love, baseado nos Beatles, e o Mystère, baseado em...em alguma outra coisa.

Os espetáculos começam de forma sutil, com os artistas entrando no palco como quem não quer nada. No caso do Mystère há um palhaço (apesar de não estar necessariamente vestido como um) que recebe os últimos a entrarem no teatro, os faz dar enormes voltas pelos corredores de cadeiras, derruba pipoca neles, separa casais. Tudo sob a luz de um holofote, para delírio do público já sentado. Ele volta a aparecer em diferentes ocasiões durante o show, sempre engraçado. Aliás, esses momentos cômicos, geralmente sem a necessidade de quaisquer palavras, são os que mais lembram o velho e tradicional circo. Um tipo de humor universal, que atinge crianças e adultos. Outro desses momentos veio de um “bebê”, só na base do gugu dadá e interação com a plateia. Lá para as tantas ele encasquetou que uma mulher sentada na primeira fila era sua mãe.

Ainda no Mystère há três números que chamaram bastante atenção. Em um deles, um cara suspenso por cabos faz malabarismos no ar com um cubo vazado da sua altura, cujas arestas de alumínio (suponho que seja desse material para garantir maior leveza) ele segura ora com os pés, ora com as mãos, fazendo-o rodopiar freneticamente por vezes. Bem impressionante.

Em outro número, vários garotos escalam barras no estilo daquelas em que se faz pole dance (há vários shows de pole dance em Las Vegas, mas de outro gênero), saltando de uma para outra. No ápice da apresentação, um deles sobe até o topo da barra, vira de cabeça para baixo preso apenas pelas pernas, e deixa-se escorregar velozmente até sua cabeça ficar a um palmo do chão. Isso é que é controle.

O terceiro número que se destacou foi um realizado por dois caras e mais nada. De pés no chão, um deles erguia o parceiro no ar e fazia as mais malucas demonstrações de força e equilíbrio. O mais impressionante talvez seja o fato de conseguirem fazer tudo de forma lenta, o que ajudava no equilíbrio, mas em compensação exigia muito mais da força. O momento que arrancou um “nooossa” da plateia, em vários idiomas, foi quando um deles, deitado de bruços no chão, dobrou os joelhos, erguendo o companheiro que estava plantando bananeira, com as mãos segurando os tornozelos do primeiro. Deu cãibra na minha panturrilha só de assistir.

Entrada do teatro do hotel Mirage
Os Beatles não são mais apenas a maior banda de todos os tempos. Eles são também uma marca valiosíssima, que transforma em ouro tudo que toca. Mas não é à toa. Com um repertório imenso de belas canções, que são capazes de fazer refletir e balançar o esqueleto, eles foram e ainda são muito, muito bons. Segundo minha irmã, uma pesquisa séria aponta que uma pessoa normal, vivente no presente, ouve Beatles pelo menos quatro vezes por dia, nem que seja um trecho apenas de uma música. Ao acaso ou não.

Com a leveza de movimentos dos integrantes do Cirque du Soleil, que parecem fazer tudo parecer tão fácil, as músicas dos Beatles ganharam coreografia e lirismo visual de outro mundo.

Os Beatles, ainda em forma
O espetáculo Love começa com Because. Ela é uma música hipnótica, que puxa você de seja lá em qual mundo você está, e o faz esquecer que está dentro de um teatro em Las Vegas. Em seguida começa Get Back, com força, e saem pessoas voando e pulando de todos os buracos do palco. Bem legal o contraponto.

A princípio pode parecer decepcionante o fato da música não ser ao vivo. Mas depois nota-se que os malabarismos e movimentos dos artistas do Cirque Du Soleil compensam, e que as canções com os vocais originais soam bem cristalinas. Além disso, na maior parte do tempo, os produtores se concentraram nas músicas da fase psicodélica e de músicas mais trabalhadas dos Beatles. Há um momento iê-iê-iê no show, pois não dava para ignorar a sua existência, mas passa rápido.

No meio do espetáculo começa a tocar Blackbird, uma das minhas favoritas dos Beatles. Um “pássaro” preto contracena com um dos palhaços de patins em um momento lúdico.

Por fim, ao som de All you need is love, os artistas receberam o merecido aplauso de pé. É de se admirar realmente a dedicação daqueles homens e mulheres, entertainers profissionais ao extremo. Muitos desses espetáculos têm duas apresentações por noite, até cinco dias por semana. E não interessa o dia ou a hora, tem-se a mesma qualidade. Afinal, o show não pode parar.

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