Sábado, Dezembro 03, 2011

Pela costa do Pacífico

Esse texto resultou da viagem de férias, durante o mês de outubro, em que eu e Marie passamos por Las Vegas, Grand Canyon, Los Angeles, Cambria, Carmel-by-the-sea e San Francisco.


Um tempo atrás escrevi um texto – chamado Inércia – no qual tudo que o personagem principal queria era dirigir seu carro por uma bonita estrada à beira-mar. Quando imaginei essa paisagem, a imagem que me vinha à cabeça era a do Big Sur, na Califórnia. Imagem essa que eu devia ter visto em um documentário, na internet ou em um dos muitos filmes assistidos.

Agora eu estava em Los Angeles, com o rumo traçado para San Francisco, por meio da Pacific Highway 1 – ou simplesmente CA-1. Este caminho é mais longo e sinuoso do que o feito pela rodovia I-5, que corta pelo interior em vez de seguir a costa. Porém, para quem não está com pressa e curte uma road trip com belas vistas, vale a pena margear o pacífico. Após deixarmos LA, pegamos a US-101 e paramos na cidade de Santa Barbara, na praia, onde a neblina era intensa e artistas expunham suas pinturas na calçada. Pegamos umas dicas no centro de visitantes e decidimos seguir para Solvang, uma cidade cheia de descendentes dinamarqueses.

California 1
Antes passamos por um posto de gasolina, onde compramos um mapa a fim de confrontar as ordens do nosso amigo GPS. A voz feminina robótica pronunciava “cinqüenta” com a língua presa e às vezes nos desviava do caminho com as melhores paisagens, mas mesmo assim foi essencial durante toda a viagem. A pista ziguezagueava ora em direção ao mar, onde nada se via devido à neblina, ora em direção ao interior, onde o sol brilhava em um céu de azul intenso e a temperatura subia cerca de 15 graus Celsius. A beleza estava justamente nesse contraste.

Já no rumo de Solvang pegamos a rodovia estadual CA-154 e começamos a subir montanhas. Passamos por vales verdes e profundos, por um grande lago, e chegamos à cidade. Paramos no centro de visitantes onde um simpático senhor nos atendeu e nos deu a dica de restaurante para o almoço. Fomos para o Red Viking, tipicamente dinamarquês, e reguei o almoço com uma Carlsberg, para experimentar. Depois andamos um pouco pelas ruas. Parecia que estávamos em uma cidade de brinquedo, tudo bem organizado e limpo. Saindo de lá voltamos para a US-101 e após alguns quilômetros finalmente desembocamos na CA-1, a singela rodovia estadual que tanto me inspirava.

No final da tarde chegamos à nossa parada para pernoite. Cambria é uma cidade pequena, bem peculiar. Ainda coberta pela neblina e com um trecho à beira-mar, sobre rochedos, chamado de Moonstone Beach, Cambria parece o cenário perfeito para uma daquelas histórias de Agatha Christie. O nosso hotel era o Cambria Landing Inn. A senhora da recepção, apesar de parecer séria candidata à assassina da trama, nos trocou de quarto, dando-nos o privilégio de ter uma varanda de frente para o pacífico. Naquele momento não se via nada, mas ele estava ali. Descemos até a praia, que é em tudo tão diferente de nossas praias no Brasil, que parecíamos estar andando em outro planeta. A areia é mais escura, há pedras variadas e podiam ser vistas algumas focas. À noite demos uma volta pela cidade, que estava mais calma que o habitual por ser meio de semana. Jantamos no Indigo Moon, um bom restaurante.

Pescador na névoa de Moonstone Beach
No dia seguinte saímos vagarosamente de Cambria, agora sem neblina, meio que com pena de deixar aquele lugar, mas animados com relação ao que ainda estava por vir. De volta à CA-1, paramos em um dos vista points (há placas alertando de lugares bonitos para se parar) a partir do qual se via uma gangue de focas fanfarronas se esfregando preguiçosamente na areia da praia. Em San Simeon descemos novamente e caminhamos por um longo píer. Sobre ele voavam pelicanos, que de repente desciam numa vertical vertiginosa em direção à água, como se fossem kamikazes, e mergulhavam fundo em busca de um peixe. Era interessante o contato com aquela natureza para nós tão exótica.

Píer em San Simeon
O começo do Big Sur – esse trecho mais selvagem da rodovia CA-1, que se estenderia até Carmel – começava suave, por campos levemente ondulados e soltei Jimi Hendrix no som do carro. Vinha guardando ele para o momento certo. Pouco tempo depois começamos a subir montanhas e dar de cara com as belas paisagens. São muitas as curvas, às vezes tão fechadas que somos obrigados a reduzir a velocidade para uns 20km/h, e torcer para que quem vem na direção oposta faça o mesmo. É difícil de imaginar o trabalho enorme que deu para talhar aquele caminho na rocha. Ainda mais no começo do século passado. Passamos por diversos pontos em manutenção, devido a deslizamentos de pedras e também devido à construção de uma nova ponte. Há vistas espetaculares pelo caminho, mas o engraçado é que por mais que tiremos fotos por lá, sempre perdemos as melhores oportunidades, ou simplesmente não conseguimos captar imagens tão bonitas quanto a que nossos olhos podem ver.

"And the wind...cries...Mary"
Paramos para o almoço no Lucia Lodge, um ponto de apoio com pousada e um restaurante estrategicamente localizado no alto de uma encosta. De lá seguimos para o Julia Pfeiffer Burns State Park. Há uma caixa de madeira na entrada com as instruções. Devemos pagar dez dólares para a manutenção do parque, colocando uma nota dentro de um envelope e depositando na urna. Tudo na confiança. Como só tinha uma nota de vinte dólares, tive que esperar aparecer alguém com uma nota de dez para pagar a entrada de ambos. Deixamos o carro estacionado e seguimos por uma curta trilha que passa por um túnel para pedestres e nos leva à atração mais famosa desse parque. É uma singela, porém simpática cachoeira que escorre pela pedra e mergulha diretamente na areia da praia. No passado costumava cair diretamente sobre a água do mar. Lá embaixo, um criativo noivo havia escrito na areia o seu pedido de casamento: “Will you marry me? J.” Duvido que ela não tenha aceitado. Imediatamente ao lado um agourento já havia escrito: “Divorce”.

Cachoeira no Julia Pfeiffer Burns State Park
Mais à frente, junto às ruínas de uma casa, há placas com a história do local. Em 1924 um rico casal – os Browns – da costa leste comprou aquelas terras e instalou um rancho. Lá a senhora Brown ficou amiga de uma filha de pioneiros da região, Julia Pfeiffer, que morreu em 1928. Em 1940 os Browns construíram a casa, que pousava majestosa naquele fim de linha. Em 1956 eles voltaram para a Flórida e em 1961, após a morte do marido, a senhora Brown doou o rancho para o estado da Califórnia, para transformá-lo em um parque. Solicitou que fosse dado a ele o nome da amiga, Julia, a quem considerava a verdadeira pioneira do lugar. Não sei por que, mas aquilo tinha o maior clima de “Lendas da Paixão”, ou “O Morro dos Ventos Uivantes”.

No outro lado do parque entramos na mata, por meio de uma trilha de terra batida, coberta de folhas. Do chão erguiam-se esguias árvores redwood, tipicamente californianas. A sensação era ótima de respirar ali, ao som de um suave riacho que corria em direção ao mar, provavelmente para se transformar naquela pequena cachoeira.

Aqui daria um ótimo refúgio: natureza in natura
De volta à estrada, rodamos um pouco mais até a famosa Ponte Bixby. É um bonito vão em arco, construído em concreto armado, em 1932. Impressionante como ela mostra-se harmoniosa com o ambiente em volta. Lá paramos para admirar a paisagem e me pus a olhar lá para baixo, imaginando que aproximadamente meio século atrás Jack Kerouac andava bêbado e alucinado por aquelas paragens, insultando o mar com seus poemas malucos (post que fala do seu livro Big Sur).

Finalmente lá, na Bixby bridge
Em Carmel chegamos ao fim do trecho de estrada mais bonito pelo qual dirigimos em toda essa viagem pela costa oeste. Até entregarmos o carro no dia seguinte, em San Francisco, dirigimos um total de 2400km com o valente Black Armageddon – o nosso SUV Ford alugado (espero que não haja ciúmes por parte do nosso Gol, o Black Thunder). Lá em Carmel ainda percorremos a 17-mile drive, que fica numa propriedade privada e tem de campos de golfe a praias selvagens. Em uma das paradas há a Bird Rock, uma pedra enorme tomada por pássaros, focas e leões marinhos. Para os pássaros deve ser fácil, mas como os seus companheiros fazem para subir naquela pedra eu não sei. Em outra parada há o Cipreste Solitário, que resiste estoicamente há mais de 250 anos às intempéries daquele local.

Marie posando com o Black Armageddon
Bird Rock
Tão extenuados quanto felizes, tivemos uma ótima noite em Carmel (ver post). Acho que esse foi o melhor dia da viagem. Uma verdadeira overdose de natureza e paisagens bonitas. Quando estávamos entrando em uma das curvas fechadas do Big Sur, vi sair de uma das diversas trilhas que adentravam o mato intocado, um jovem barbudo, com uma pesada mochila nas costas. Imediatamente veio-me à mente a imagem do Alexander Supertramp, uma espécie de mártir moderno, em tempos de rebeldia sem causa. Sua bonita, mas trágica história pode ser conferida em livro ou filme – "Na Natureza Selvagem". Parece que o espírito aventureiro de viajantes anônimos, embebido por um desejo de liberdade, personificava-se naquele lugar. Da mesma forma que senti quando, em viagem à Paris, vi uma pichação em homenagem ao Alexander Supertramp no túmulo de Oscar Wilde, no cemitério Père Lachaise. É um sentimento que está vagando lá fora, nesse mesmo instante, viajando junto com a brisa que sopra no mar do Big Sur.

2 comentários:

p.césare disse...

Putz, que viagem essa a de vocês, 3F! Não sou lá muito fã dos EUA, nunca uma primeira opção, mas confesso que seus posts (ainda por cima remetendo ao Kerouac) me deixaram super a fim de planejar uma viagem beatnik, com uma esticadinha a Concord, o que não seria uma má ideia ; ) Adorei as fotos de paisagens nubladas, um show à parte, bem distante daquele lugar comum de uma Califórnia ensolarada. Delícia pura! Saludos

FFF disse...

Césare, entendo suas impressões quanto aos EUA. Mas lá há pessoas de todos os tipos, como em todo outro lugar, acredito eu. Sem falar que a mistura de nacionalidades faz dos EUA um lugar excepcional. Vale a pena explorar. abraço!